Indústria argentina se prepara para abertura
Indústria argentina - Depois de anos de políticas protecionistas, a indústria argentina vive um novo momento com o presidente Mauricio Macri. Com menos subsídios à produção manufatureira, alguns setores terão de enfrentar a concorrência global e correm o risco de desaparecer.
A produção manufatureira viu seu peso na economia argentina diminuir nas últimas décadas, em contraste com o crescimento da agroindústria, e se sente ameaçada pelas importações. "Com Néstor e Cristina Kirchner, a indústria vivia numa bolha. O governo não pensava em uma economia aberta e integrada ao mundo. Com Macri, haverá menos protecionismo e alguns setores vão sumir pelo excesso de impostos a pagar, pela dificuldade de produzir em baixa escala ou pela tecnologia obsoleta", diz Carlos Schwartzer, da consultoria Schwartzer Economía. "O setor têxtil, por exemplo, por mais que tenha redução de impostos, não conseguirá competir com o que vem da China. E o governo não parece disposto a dar subsídios para setores não estratégicos." Segundo a União Industrial Argentina (UIA), a produção industrial cresceu 0,7% no acumulado do ano até novembro. Esse crescimento, no entanto, deve-se cada vez mais à agroindústria e menos ao setor manufatureiro. Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) mostram que no acumulado dos primeiros nove meses de 2017, 39,3% das exportações argentinas foram itens da agroindústria, enquanto 30,6% foram manufaturados. O restante é dividido entre produtos primários (26,6%) e energia (3,5%). Na comparação entre setembro deste ano e do ano passado, as exportações de itens da agroindústria cresceram 2,8%, atrás somente de produtos primários, que tiveram alta de 7,6%. A exportação de manufaturados não teve alta. Pablo Dragun, coordenador do centro de estudos da UIA, diz que, entre 2011 e 2016, as exportações de manufaturados caíram 41,6%, enquanto as de itens da agroindústria caíram 15,6%. A queda maior de bens industriais, avalia Dragun, pode ser explicada em parte pela recessão no Brasil, destino de dois quintos das exportações manufatureiras argentinas. "A indústria busca hoje se reativar após anos de sofrimento", diz Victoria Giarrizzo, da Universidade de Buenos Aires. "Nos últimos anos, nosso mercado interno encolheu, e as exportações tiveram queda importante. Em 2016 a Argentina exportou US$ 14,1 bilhões a menos do que em 2014. Indústrias que iam bem agora estão ameaçadas pelas importações." No estudo "O estoque de capital na indústria de pequenas e médias empresas: condições para modernizar o maquinário e o equipamento de produção", do qual é coautora, Giarrizzo lembra que 66,4% das pequenas e médias empresas industriais utilizam máquinas e equipamentos com tecnologia atrasada. Setores produtores de bens de capital trabalham com equipamentos com mais de 15 anos, enquanto o setor de calçados utiliza máquinas que têm 12 anos. O setor calçadista - segundo ranking elaborado pela consultoria Abeceb - é o menos competitivo da indústria argentina, em relação ao mercado externo, com baixos níveis de produtividade, capacitação pessoal e investimento. Já o de alimentos, ligado à agroindústria, é dos mais competitivos. Segundo o Indec, em 2007 o total de investimento em capital bruto no país correspondia a 19,5% do PIB. Esse número caiu para 14,8% em 2016. No período acumulado dos nove primeiro meses do ano, houve alta de 14,4% em relação ao mesmo período do ano passado.
A queda até o ano passado pode ser em parte explicada pelas políticas protecionistas dos ex-presidentes Néstor Kirchner (2004-2007) e Cristina Kirchner (2008-2015), saudosistas do lema "vivir con lo nuestro" de Aldo Ferrer, ministro da Economia entre 1970 e 1971. Políticas como os subsídios à montagem de televisores na Terra do Fogo - cujos insumos importados e logística resultavam num produto 166% mais caro que no Chile. Ou as Declarações Juradas de Autorização à Importação (Djais), que funcionaram até 2015 como barreiras às importações. A indústria argentina hoje utiliza 67,3% de sua capacidade instalada e vem perdendo participação no PIB. Essa é uma tendência global, diz Fausto Spotorno, da consultoria Orlando J. Ferreres & Associados. Em 1970, a indústria manufatureira correspondia a 25% do PIB argentino. Isso caiu para 21% em 1980, 18,5% em 2000 e chegou a 16,8% no ano passado. No Brasil, o percentual de participação da indústria no PIB foi de 15,3% em 2000 para 11,7% em 2016, segundo o IBGE. Os dados referentes ao Brasil e à Argentina possivelmente são feitos com metodologias distintas, mas dão ideia de perda de participação da indústria nessas economias. Num cenário de lenta queda do desemprego urbano, que está em 8,7%, o setor manufatureiro é o mais atingido. Segundo o Centro de Economia Política Argentina, do total de demissões entre janeiro e junho, 69% foram na indústria. Neste ano a Argentina subiu 10 posições no ranking de competitividade global, segundo o Relatório de Competitividade Global 2017-2018, do Fórum Econômico Mundial. O país, no entanto, ocupa a 92ª de um total de 137 posições. O Brasil ficou na 80º posição. Para a Argentina se tornar mais competitiva e reativar a indústria, diz Nicolas Bonofiglio, da Abeceb, é preciso melhorar a infraestrutura para otimizar a logística, ampliar o acesso ao crédito, além de reduzir a carga tributária e os custos trabalhistas. Por isso, diz Giarrizzo, as reformas prometidas por Macri são aguardadas com expectativa. No último mês, o governo encaminhou ao Congresso um projeto de reforma trabalhista e outro de reforma tributária, que prevê redução do imposto de renda das empresas e de encargos trabalhistas.
















