Rússia – Nova era para a indústria de laticínios
Leite/Rússia – O governo russo está despendendo esforços para melhorar a qualidade dos produtos lácteos no mercado doméstico. O principal objetivo é aumentar o consumo per capita de lácteos, o que é dificultado, não apenas pelo poder de compra da população local, mas, também pela falta de confiança do consumidor no leite e produtos lácteos disponíveis nas prateleiras dos supermercados.
Desde 2014, quando os produtos lácteos da Europa deixaram o mercado da Rússia, a palavra “falsificação” passou a ser fortemente associada com produtos lácteos disponíveis.
Um ano após as sanções, o Departamento de controle de qualidade da Rússia, o Rosselhoznadzor anunciou que 20% dos produtos lácteos do mercado doméstico poderiam ser considerados fraudados.
“Em uma tentativa de reduzir custos as indústrias adicionavam ao leite produtos tais como amido, giz, sabão, refrigerante, limão, ácido bórico e gesso”, afirmou o Rosselhoznadzor em comunicado no site.
Em 2016, o percentual pulou para 30%. Em algumas categorias, como queijos, a adulteração pode chegar a 80% dos produtos disponíveis, e, em alguns casos, nem gordura de leite continha no queijo analisado, relata o Rosselhoznadzor.
Evidências
A entidade que representa as indústrias de laticínios da Rússia, Soyuzmoloko, criticou as declarações do Rosselhoznadzor. “Essas afirmações não foram baseadas em evidências”, declarou Andrey Danilenko, presidente da Soyuzmoloko,, em carta aberta ao Ministério da Agricultura da Rússia. “Essas declarações tiveram impacto negativo na reputação da indústria nacional de laticínios e podem desencadear queda na demanda doméstica de produtos lácteos”, alertou.
Os resultados divulgados pelo Rosselhoznadzor, no entanto, foram confirmados por inúmeros estudos realizados por organizações independentes de proteção ao consumidor. Dos 2.500 produtos lácteos inspecionados pela organização Roscontrol nos últimos anos, 779 foram colocados na lista negra por serem falsificados, ou por apresentarem sérios problemas de qualidade, disse a Roscontrol em comunicado divulgado em agosto de 2019.
A falsificação mais comum é substituir a manteiga do leite por óleo de palma, ou outros óleos mais baratos, disse a Roscontrol. Em 2018, 21,6% dos produtos lácteos disponíveis nas prateleiras dos supermercados da Rússia foram considerados adulterados, estimou o Rosselhoznadzor.
Economia
É 30% mais barato produzir queijo substituindo a manteiga de leite por óleo de palma, explicou Danilenko, acrescentando que há questões relacionadas não apenas à qualidade dos produtos lácteos russos, mas, também produtos originários da Bielorrússia, e importados pela Rússia. O óleo de palma acabou se tornando muito popular na Rússia, porque é escassa a disponibilidade de leite cru de alta qualidade. O país importava, principalmente da União Europeia (UE), até 25% do leite cru necessário para produzir queijo, manteiga e outros produtos, antes do embargo de 2014, disse o Soyuzmoloko.
“Dada a escassez de leite cru e os baixos padrões de qualidade que são exigidos, as indústrias compram o leite que encontra. Para não ser detectado a degradação do produto, é adicionado o salitre”, disse Alexander Borisov, diretor da Roscontrol, sendo que essa adição não constava no rótulo do produto.
Um problema adicional criado pela escassez de leite cru, foi a elevação de problemas dos antibióticos nos alimentos da indústria de laticínios russa para um novo nível. “Depois da aplicação de antibiótico, a vaca deve ter um período de carência para que os resíduos das drogas não entrem na cadeia do leite”, disse Sergei Raksha, diretor da organização de proteção ao consumidor, Truth About Food.
Em 2015, devido à escassez de leite no mercado, na Rússia, quase ninguém estava disposto a cumprir os prazos de carência. O leite passou a ter um sabor de estragado, pois o leite com antibióticos não fermenta bem para o queijo, acrescentou. A produção de leite cru na Rússia aumentou ligeiramente desde 2014, para 31 milhões de toneladas. O governo pretende elevar esse número para 34 milhões de toneladas em 2024.
Consumidores
Alguns médicos na Rússia alertam que mesmo o consumo esporádico de óleo de palma possa ser extremamente perigoso para o sistema cardiovascular, colocando sobre pressão o consumo de produtos lácteos. “O consumo de produtos lácteos caiu 16 quilos em equivalente leite entre 2011 e 2017, ficando em 236 quilos, enquanto que a recomendação dietética é de 325 quilos per capita. O consumo está caindo, apesar da crescente produção doméstica, e isso pode ser atribuído à queda no poder de compra da população local”, estima o Ministério da Agricultura da Rússia.
Óleo de palma
O nutricionista-chefe do Ministério da Saúde da Rússia, Viktor Tutelyan fez um alerta dizendo que todos os relatórios sobre o perigo do óleo de palma para o sistema cardiovascular são falsos, e acrescentou que “o óleo de palma é até mesmo utilizado para prevenir aterosclerose e distúrbios metabólicos”. Isso, no entanto, não impediu o Parlamento Russo de aumentar de 10% para 20% o IVA, [imposto] sobre o óleo de palma em agosto de 2019, em uma tentativa de reduzir seu uso na indústria de laticínios.
Em 2018 a Rússia importou 1,06 milhão de toneladas de óleo de palma, um aumento de 18,9% em relação ao ano anterior, estimou o Serviço Federal de Alfândega da Rússia. As importações vêm crescendo constantemente, desde 2014, quando eram 659.000 toneladas.
Além das preocupações em relação aos possíveis efeitos nocivos sobre os lácteos da Rússia, existem outros problemas. A imprensa russa tem relatado, repetidamente, que os consumidores no país estavam desanimados com o sabor de alguns produtos. Em muitas ocasiões se diz que “o queijo russo tem gosto de borracha”.
Sistema de Certificação
2019 é visto como um ano de mudanças, já que o governo da Rússia está adotando várias medidas destinadas a enfrentar a “crise de adulterações” no mercado doméstico de lácteos. A mudança mais importante é a inclusão das indústrias de laticínios no sistema de certificação veterinária eletrônico Mercury.
A partir de 1º de novembro, todos os produtos lácteos, queijo, leite fermentado, iogurtes e outros produtos devem vir acompanhados de documentos veterinários. “A ideia é que as empresas devem declarar qual matéria prima é usada na manufatura. Com o sistema, ficará transparente o quanto de leite ou óleo de palma entra na composição do produto”, afirmou o Rosselhoznadzor.
O sistema foi originalmente introduzido na Rússia em 1º de julho de 2018 e já provou sua importância em outros segmentos do mercado russo de alimentos. Com total transparência o Mercury será capaz de tornar a fraude quase impossível. Há, no entanto, a percepção de que o sistema possa não ser suficiente para lidar com a falsificação na indústria de laticínios. “Não existem receitas no Mercury, e isso significa que os órgãos de inspeção não poderão calcular quanto de produto acabado será, realmente fabricado, com a matéria-prima fornecida. Cada empresa produz uma linha de produtos diferente, e às vezes até o mesmo produto, mas, com formulações completamente diferentes”, disse Marina Petrova, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Moscou. “Para fazer 1 kg de queijo você precisa de 10 litros de leite e depois resta o soro de leite. Como é usado dentro da planta e no que está sendo processados – cada empresa decide independentemente. É uma grande questão de como essas informações seriam interpretadas pelos órgãos de supervisão”, acrescentou Petrova.
Sistema de Identificação
Além disso, o Ministério da Indústria da Rússia também quer introduzir um novo sistema de identificação eletrônica para todos os produtos lácteos. O Ministério explicou que também irá melhorar a rastreabilidade dos produtos ao longo da cadeia de suprimentos.
Os produtores de leite, no entanto, reclamam que tanto o Mercury como o novo sistema acrescenta um ônus financeiro aos produtores de leite. “Na minha opinião, ao introduzir o sistema de etiquetagem compulsória, o Ministério está tentando roubar a indústria de laticínios, que hoje já tem rentabilidade mínima”, disse Ludmila Manitskaya, presidente da União Russa de Laticínios.
“O problema é que o equipamento não é fabricado na Rússia, e o sistema pode custar cerca de Rub 115 milhões (US$ 1,8 milhões) por ano, para a indústrias. A rotulagem obrigatório para todos os produtos no mercado de laticínios está prevista para entrar em vigor no dia 1º de março de 2020, mas, pode ser prorrogada, porque muitas empresas são contra o projeto. A maioria dos especialistas concordam que, uma vez implantado o sistema, não haverá espaço para lácteos adulterados na Rússia. Colocando o mercado interno em ordem, o governo da Rússia vislumbra potencial exportador para a indústria domésticas. O presidente Vladimir Putin, estabeleceu como meta, elevar as exportações da Rússia de US$ 23 bilhões, em 2018, para US$ 45 bilhões, em 2025, e a indústria de laticínios é considerada um segmento de significativo potencial exportador. Em 2018 a Rússia exportou US$ 235 milhões em produtos lácteos, e a expectativa é de que esse número possa crescer nos próximos anos, já que o país recebeu, recentemente, permissão para exportar produtos lácteos para a China.
















