Economistas alertam para piora da desigualdade com a pandemia
Desigualdade - A pandemia tem o potencial de aumentar a desigualdade econômica na maioria dos países ao mesmo tempo. Atinge com mais força pobres, mulheres e negros. Os muito ricos recuperaram suas perdas em nove meses, enquanto os mais pobres do planeta levarão 14 anos para repor seus prejuízos.

Estas são as principais mensagens do relatório “O Vírus da Desigualdade” que a Oxfam lança hoje no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. “O vírus mostra a profundidade da desigualdade e como se reflete na recuperação da pandemia”, diz Katia Maria, diretora-executiva da Oxfam Brasil.
A ONG realizou uma pesquisa com 295 economistas de 79 países como a indiana Jayati Ghosh, o americano Jeffrey Sachs e o francês Gabriel Zucman. Entre os entrevistados, 87% acreditam que a desigualdade de renda aumentará em seus países e isso inclui economistas de 77 dos 79 países da pesquisa. Mais da metade diz que a desigualdade de gêneros irá crescer e dois terços têm a mesma opinião para a desigualdade racial.
“A leitura dos economistas é que o vírus não vai passar impune em todos os países”, diz Katia Maia. “O vírus mostra as profundidades da desigualdade e como isso se reflete na recuperação da pandemia”.
A Oxfam usa uma variedade de dados para montar o relatório - projeções do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo. Para este estudo os pesquisadores usaram a lista anual do patrimônio líquido dos bilionários no mundo publicada pela Forbes em março de 2020 e a atualização de 30 de novembro e 31 de dezembro.
As mil pessoas mais ricas do mundo recuperaram todas as perdas que tiveram durante a pandemia entre fevereiro e novembro de 2020. Se em fevereiro de 2020 os mais ricos tinham 100% de suas fortunas, em março a riqueza caiu para 70%. Em novembro, contudo, haviam recuperado o prejuízo. O que levou nove meses agora demorou cinco anos na crise financeira de 2008, compara o texto.
Os bilionários acumularam US$ 3,9 trilhões entre 18 de março e 31 de dezembro e a riqueza total do grupo soma US$ 11,95 trilhões. É o equivalente ao que os governos do G 20 gastaram para enfrentar a pandemia, diz o estudo.
As mulheres, que têm a maioria dos empregos mais precários, perderam renda pelo impacto da pandemia. “Se tivessem o mesmo nível de representação que os homens nesses empregos, não estariam mais sob o risco de perder renda ou empregos”, diz o relatório.
O estudo evidencia realidades duras. “Nos Estados Unidos, 22 mil negros e hispânicos estariam vivos se tivessem a mesma taxa de mortalidade por covid-19 que os brancos”. As taxas de contaminação e mortes são maiores em áreas pobres na França, Espanha e Índia. Na Inglaterra, estes índices são o dobro nas regiões mais pobres comparadas com as mais ricas.
“A desigualdade extrema não é inevitável, mas uma escolha política”, diz o estudo. “É preciso pensar não só em controlar gastos, ter PIB, fazer ajustes fiscais, mas pensar em dar empregos dignos e em uma economia mais inclusiva e com menos impactos ambientais”, diz Katia Maia. “No Brasil, por exemplo, isso significa fazer uma reforma tributária que trate diferente quem ganha diferente, segue. “O auxílio emergencial é uma questão humana, mas também econômica, que teve impacto positivo”.
















