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Economia Selectus nº 6130

Desânimo do consumidor é maior do que o das empresas, aponta FGV

Desânimo do consumidor - O baque na economia provocado pela covid-19 afetou muito mais o ânimo dos consumidores brasileiros do que o das empresas, tendência que se acentuou no início do segundo trimestre.

Fonte: Fonte: Valor Econômico | Foto de capa: Pixabay
Desânimo do consumidor é maior do que o das empresas, aponta FGV

Mesmo tendo recuperado parte das perdas recentes, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) ainda ficou 17,3 pontos inferior ao Índice de Confiança Empresarial (ICE) em abril – uma das maiores distâncias entre os indicadores da série histórica do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), que começa em setembro de 2005. 

Depois de subirem ambos 4,3 pontos no último mês, o ICC e o ICE marcaram 72,5 e 89,8 pontos, respectivamente. Por estarem abaixo da linha divisória dos 100 pontos, os dois índices apontam uma visão pessimista sobre o momento atual e as expectativas futuras. 

A medição do FGV/Ibre, no entanto, mostra uma situação mais desconfortável para os consumidores, cuja confiança está em terreno “extremamente baixo”. Já o indicador empresarial está em uma zona considerada “baixa” pela entidade.

O ICE agrega os índices da construção, da indústria, do comércio e dos serviços e está apenas 6 pontos abaixo do nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020 (95,8 pontos). A confiança do consumidor tem um caminho de recuperação mais longo a percorrer: está 15,3 pontos distante do nível pré-pandêmico.

Segundo economistas, a fraqueza do mercado de trabalho, o orçamento sob estresse com mais dívidas e o recrudescimento da pandemia explicam o desânimo maior das famílias neste início de ano, combinação negativa para o consumo. Neste cenário, a reedição do auxílio emergencial em valor, alcance e duração menores representa um alento pequeno, e uma melhora mais expressiva da demanda só é esperada a partir do segundo semestre, em linha com a perspectiva de avanço da vacinação e controle mais efetivo da covid-19. 

Alberto Ramos, diretor de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs, observa que o ICC recuperou somente 48% das perdas registradas em março e abril de 2020, que marcaram o período de impacto mais severo da pandemia na atividade econômica. No ICE, a retomada foi quase total, de 85%.

“O índice do consumidor vem se diferenciando muito do empresarial ao longo da pandemia porque os consumidores mudaram seu comportamento”, afirma Viviane Seda, coordenadora das sondagens de confiança do FGV/Ibre. Em um primeiro momento, diante do forte aumento da incerteza, as famílias passaram a poupar recursos de forma precaucional, priorizando a compra de bens essenciais, lembra Viviane. No segundo semestre de 2020, seja pelas restrições ao funcionamento de atividades que dependem de aglomeração ou pelo medo da contaminação, foi a vez de dar preferência ao consumo de bens em geral, em detrimento dos serviços. 

“Essa mudança comportamental levou a uma cautela grande dos consumidores em relação à economia e aos gastos”, aponta a coordenadora. Essa postura ainda se mantém, destaca a economista, mesmo após a alta da confiança em abril. Isso porque boa parte da melhora do ICC foi influenciada pelo componente de expectativas, enquanto o índice que mede a percepção atual subiu apenas 0,5 ponto no período, para 64,5 pontos. 

“Apesar da alta na margem, o nível muito baixo continua a retratar um consumidor extremamente cauteloso nas compras e preocupado com os rumos da pandemia”, aponta o FGV/Ibre. Mesmo que o consumidor vislumbre possibilidade de melhora no futuro, analisando o momento atual, a percepção sobre a situação financeira é ruim, o que mantém a intenção de compras em baixa e tende a atrapalhar o consumo, diz Viviane.

Em abril, o indicador de situação financeira atual que compõe o ICC marcou 60,7 pontos, menor nível desde agosto de 2016 (60,3 pontos), ao passo que o índice de situação econômica atual ficou em 72 pontos, patamar mais baixo de toda a série. Segundo a economista, os consumidores percebem certa dificuldade de recuperação do mercado de trabalho, o que afeta negativamente a visão sobre o momento atual e o ímpeto para compras. 

“As famílias de renda mais alta ainda estão guardando dinheiro e não pretendem usar esses recursos agora, enquanto as faixas de renda mais baixas estão bastante endividadas. Isso prejudica o consumo”, resume a coordenadora das sondagens do FGV/Ibre

Por Arícia Martins, Valor — São Paulo

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