Ucrânia – Implicações para a agricultura e setor lácteo da UE
Ucrânia – A invasão da Ucrânia pela Rússia já está causando destruição em massa, perdas de vida, sanções, e aumento da retórica dos dois lados.

A alimentação também é crítica no conflito. Isso é verdade não apenas para os países diretamente envolvidos, mas, também, em outras regiões.
Segundo maior país da Europa, a Ucrânia é o quarto maior fornecedor extra-bloco de alimentos para a União Europeia (UE). É responsável por um quarto dos cereais e óleos vegetais importados pela UE, e metade do milho. A Rússia também é um grande exportador de produtos agrícolas. A Kite Consultoria do Reino Unido (RU) publicou dois relatórios sobre a crise, um sobre os efeitos da guerra para a indústria de laticínios do RU, e um outro sobre o impacto no mercado de ração.
A companhia disse que as sanções terão impacto econômico além das fronteiras da Rússia, mas isso é claramente preferível a se envolver diretamente em ações militares.
O relatório observa que a Ucrânia e Bielorrúsia são ambos exportadores líquidos de lácteos, enquanto a Rússia é um importador líquido. E diz que as exportações de lácteos da Ucrânia e Bielorrúsia para o mercado mundial excedem as importações da Rússia do mercado mundial, e a perda líquida do comércio de commodities lácteas pela Ucrânia, Bielorrússia e Rússia significaria perdas de 1,2 bilhões de quilos por ano de leite cru equivalente em oferta de lácteos para o mercado mundial.
“Qualquer conflito na Ucrânia terá impacto da oferta e demanda global de produtos lácteos, e, inicialmente, é provável que impulsionem para cima os preços das commodities no mercado mundial”, disse a Kite Consultoria.
No curto prazo, a Kite Consultoria diz que as exportações de lácteos da Ucrânia cessarão imediatamente devido às ações militares. Além disso, as sanções estabelecidas (como por exemplo, a exclusão do pagamento pelo sistema SWIFT) poderão interromper as exportações de lácteos da Bielorrússia, exceto aquelas para a Rússia e o Cazaquistão. A consultoria argumenta que isso pode mesmo impactar as exportações para outras nações, como a China, ainda que permaneçam neutras no conflito, pelas questões relacionadas aos pagamentos.
O volume de gás natural exportado pela Rússia para a UE será reduzido, em parte dado o bloqueio dos gasodutos que passam pela Ucrânia. Em decorrência disso as margens dos produtores de leite serão atingidas diretamente, pois enfretarão aumentos dos custos de energia e fertilizantes.
A Rússia pode suspender qualquer importação de lácteos “ocidentais” (principalmente da Argentina) devido à exclusão do sistema bancário internacional, continua o relatório. Também, ao longo do tempo, o aumento dos preços das commodities lácteas e/ou um ataque e desaceleração da economia global como resultado ou consequência dos elevados preços da energia podem reduzir a demanda mundial de lácteos.
O relatório diz que no longo prazo, os elevados preços das commodities podem impulsionar o aumento da produção de leite, e a Bielorrúsia pode encontrar rotas alternativas de exportação para mercados “neutros”. E ao mesmo tempo, o fluxo de comércio com a Rússia pode ser restabelecido através de operadores fronteiriços como a Armênia.
“O efeito direto da ação militar no curto prazo, será o aumento dos preços globais das commodities lácteas. Este preço alto será causado pela retirada repentina da oferta ucraniana e da Bielorrúsia do mercado mundial”, diz o relatório.
“O volume perdido por esses dois exportadores em decorrência de bloqueios (para todos os mercados, exceto Federação Russa e Cazaquistão) supera o possível volume de lácteos enviados pela Argentina para a Rússia”.
O relatório diz ainda que o mercado mundial de lácteos deverá recuar quando os preços subirem ainda mais. Um efeito secundário será o impacto negativo do aumento dos preços de energia no poder de compra dos consumidores de todo mundo. No entanto, como várias grandes nações importadores de lácteos também são grandes exportadores de combustíveis fósseis, a Kite Consultoria disse que o efeito indireto pode ser de moderado a mínimo, já que a alta renda de energia nesses países reflete no aumento do poder de compra do consumidor e, portanto, maior demanda de importação de lácteos.
Em resumo, a Kite diz que as potenciais compras de ‘pânico’ no mercado mundial de lácteos, resultante da perda imediata das exportações da Ucrânia e Bielorrúsia, podem desencadear novos aumentos de preços, mesmo que apenas volumes moderados estejam sendo negociados. No RU, aumentará a pressão dos produtores sobre as indústrias para acompanhar os aumentos globais dos preços do leite cru.
Se a situação se agravar, será importante que as indústrias de laticínios do RU aumentem os preços de venda ainda mais rápido do que nos últimos meses, para permitir que cubram os custos adicionais da inflação e possam melhorar a renda dos agricultores através do preço do leite.
“Como resultado, a inflação dos preços dos produtos lácteos ao consumidor no RU parece uma consequência inevitável”, conclui o relatório.
COPA e COGECA
Na reunião realizada na semana passada pela COPA e COGECA Praesidia, [entidades que representam o setor agropecuário da UE], todos os membros expressaram sua solidariedade ao povo ucraniando, em especial aos agricultores e seus colegas das agro-cooperativas nesse momento de dificuldades.
A união dos agricultores europeus disse que a solidariedade não se limita às palavras, e que eles tomarão ações concretas nos próximos dias e semanas acompanhando a evolução do conflito.
Em tempos de guerra, o foco na segurança alimentar se torna de importância crucial e é essencial tomar medidas necessárias o mais cedo possível para garantir que a oferta de alimentos continue chegando aos mais afetados, na Ucrânia e no mundo, disse a COPA e COGECA.
“Este é um momento de fortalecer a cooperação europeia e internacional”, disse em comunicado.
A organização disse que a desestabilização da Ucrânia pela invasão russa já desencadeou importantes consequências globais.
Para a comunidade agrícola da UE, que de acordo com a COPA e COGECA, tiveram um papel fundamental e resiliência durante a pandemia, esta crise se sobrepõe ao Covid, e os fortes aumentos de preços de todos os principais insumos agrícolas (ou seja, energia, ração, fertilizantes) nos últimos meses.
“Para manter uma Europa forte e pacífica é fundamental proteger a segurança alimentar e as cadeias de suprimentos”, diz o comunicado da COPA e COGECA.
“Esta é uma lição aprendida com nossos antepassados fundadores da Europa. Nos próximos dias e semanas, mantendo o foco na evolução para uma solução do conflito, as decisões tomadas pela UE deverão levar em consideração o impacto em setores chave da economia. A agricultura europeia é um pilar central para nossa autonomia estratégica. As decisões da UE precisam ser decisivas e rápidas para preservação desse pilar”.
















