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Economia Selectus nº 6369

Confiança em abril: recuperação evidente, mas de fôlego incerto

Retomada - As Sondagens do FGV IBRE apontam que no mês de abril tanto empresários quanto consumidores recuperaram parte do otimismo perdido a partir do segundo semestre do ano passado, quando a conjuntura passou a ser afetada por fatores como persistência da inflação e alta dos juros.

Fonte: Fonte: FGV IBRE | Foto de capa: Imagem de Markus Winkler por Pixabay
Confiança em abril: recuperação evidente, mas de fôlego incerto

O Índice de Confiança Empresarial subiu 2,7 pontos em relação a abril, para 94,5 pontos, e o Índice de Confiança do Consumidor registrou alta de 3,8 pontos, para 78,6 pontos, ainda distante do nível considerado neutro, de 100 pontos.

Economistas responsáveis pelas Sondagens apontam que o fim do surto da variante Ômicron e a eliminação quase total das restrições ao convívio social no país foram o principal motivador dessa alta. Também colaborou o pacote de medidas que promoveram alguma liquidez para as famílias, como a liberação de saques do FGTS e antecipação do 13º salário de aposentados e pensionistas. No caso dos consumidores, esse empurrãozinho para combater o impacto inflacionário se mostra evidente quando analisado o aumento da confiança por faixas de renda. O aumento do otimismo se deu em todas as faixas, excetuando-se a de renda mensal entre R$ 2,1 mil e R$ 4,8 mil. Entre as famílias com renda arte R$ 2,1 mil, a confiança subiu 7,2 pontos (para 76,2), para o maior valor desde março de 2020 (82,5 pontos).

Índice de confiança se recupera, exceto no comércio

Confiança em abril: recuperação evidente, mas de fôlego incerto

Famílias mais otimistas em quase todas as faixas de renda

Confiança em abril: recuperação evidente, mas de fôlego incerto

Entre os empresários, observou-se um maior espalhamento da melhora da confiança, que subiu em 80% dos 49 segmentos analisados – nas Sondagens de abril, esse percentual era de 59%. A maior variação foi registrada na construção (4,8 pontos), seguido dos serviços (4), e da indústria (2,4). Comércio foi o único setor que registrou recuo do índice, de -0,9 ponto. “Esse é um setor muito mais sensível à inflação, sobre a qual não está claro quando deverá ser controlada”, afirma Rodolpho Tobler, economista do FGV IBRE responsável pela análise e divulgação dos índices de confiança de Serviços e Comércio. “No segmento de não-duráveis, a alta de preços é repassada quase automaticamente. E no caso de bens duráveis, que em geral são comprados mediante algum crédito, estes são afetados pelo aumento dos juros básicos que encarecem o financiamento desses produtos”, ressalta. Uma característica peculiar observada nos meses de março e abril é que, diferentemente do ocorrido desde o final de 2021, quando a piora da confiança do setor se dava muito mais pelo vetor da expectativa do que pela percepção da situação atual, nos últimos meses a deterioração veio pelo lado das expectativas. “A melhora da avaliação da situação atual tem um pouco da devolução de quedas passadas, já que antes de março esse índice registrou queda por sete meses seguidos, ajudado pela maior abertura do comércio físico”, diz Tobler, reforçando que a piora no campo das expectativas é influenciada pela incerteza quanto à evolução do cenário inflacionário, cuja piora nos últimos meses foi ajudada pelo conflito da Rússia contra a Ucrânia. 

Já no caso dos serviços, a melhora do ânimo das famílias depois da preocupação com a onda da Ômicron em janeiro e fevereiro refletiu-se em maior disposição para o consumo, animando os empresários. “Nossos dados são sazonalmente ajustados; ainda assim é preciso destacar a atipicidade de abril deste ano, com um acúmulo de feriados prolongados e as festas de Carnaval nas grandes cidades, estimulando atividades de lazer”, descreve Tobler. Esse cenário se refletiu no resultado da Sondagem, que aponta em abril a reação mais acentuada dos serviços prestados às famílias em relação aos demais.  Ainda que o cenário da renda do trabalho e da inflação sejam negativos para o poder de compra das famílias, o economista do FGV IBRE considera que o segmento ainda tem espaço para avançar na confiança, posto que foi o mais afetado pela pandemia. “Se tomarmos como exemplo os últimos dados do Caged, que mede o emprego formal, veremos que de todos os segmentos da economia apenas três ainda estão abaixo do nível pré-pandemia: alojamento e alimentação, serviços de educação e culturais, arte e lazer”, cita, indicando as duas faces desse resultado: uma demanda ainda a ser recuperada, e um cenário desafiador de emprego e renda do trabalho. “É possível que, depois de um longo período de demanda reprimida, as famílias com condições financeiras privilegiem o consumo desses serviços em detrimento de bens, ainda que em proporções mais brandas. E isso tende a manter um resultado positivo na confiança dos serviços”, diz.

Serviços prestados às famílias lidera alta da confiança no setor

Confiança em abril: recuperação evidente, mas de fôlego incerto

Comércio: inversão de humores

Confiança em abril: recuperação evidente, mas de fôlego incerto

Outro resultado a se celebrar, apontam os economistas da Sondagem, é o da Confiança da Indústria, que registrou a primeira alta depois de oito quedas consecutivas. Aloísio Campelo Jr., superintendente de Estatísticas Públicas do FGV IBRE, ressalta que influenciaram para esse resultado o maior controle da Covid-19 – que, lembra, também colaborou para a queda de 6,4 pontos do Indicador de Incerteza do FGV IBRE, voltando pela primeira vez aos nível pré-pandemia, do início de 2020 – e a percepção menos pessimista quanto aos possíveis impacto da guerra Rússia-Ucrânia. “Em um primeiro momento, a preocupação com a guerra ficou concentrada no impacto nas cadeias globais de fornecimento. Posteriormente, passou-se a observar alguns fatores favoráveis, que a alta das commodities pode beneficiar países emergentes, e até a projeção do FMI mais positiva para o PIB brasileiro”, afirma Campelo. O economista ressalta, entretanto, que esse resultado precisa ser observado com atenção.  “Essa melhora da confiança se dá com a indústria reduzindo seu nível de utilização (Nuci), operando com estoque acima do desejado”, ressalta. “A preocupação com escassez de matérias-primas ainda é um fator limitador apontado em alguns segmentos industriais. Além disso, teremos à frente os efeitos de uma política monetária mais restritiva e um cenário eleitoral complexo, que podem limitar o fôlego dessa recuperação”, afirma.

Escassez de matérias-primas ainda é apontada como fator limitativo em diversos segmentos industriais

(% de assinalações em relação ao total, segmentos selecionados

Confiança em abril: recuperação evidente, mas de fôlego incerto

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