A indústria de laticínios culpa o ‘Cancelamento Vegano’ por seu declínio
Veganismo/RU – Tornou-se comum culpar a ‘cultura do cancelamento’ pelas crises pessoais ou políticas. Em abril, a Arla Foods, a maior indústria de laticínios britânica, lançou a campanha – com base em sua própria pesquisa – argumentando que o crescimento do veganismo entre os jovens é responsável pelo aumento da precariedade da indústria de laticínios.

Com o título “Não Cancele a Vaca”, a campanha sugere que as pessoas que optam por não consumir lácteos são mal informadas, e defende “a necessidade de equilibrar o debate sobre alimentos e saúde do planeta”.
A campanha da Arla surgiu como consequência dos resultados de sua própria pesquisa: 49% dos britânicos fazem mudanças em suas dietas com base no que lêem nas redes sociais. A geração Z, em particular, vem sendo pressionada a ser vegana. Ainda assim, a pesquisa mostra que 70% das pessoas preferem continuar consumindo leite, embora a metade tenha vergonha de pedir leite em público, e 57% dos Zoomers (Gen Z) planejam abolir completamente o leite.
A campanha da Arla não ultrapassou os veículos conservadores. No entanto, de acordo com Kai Heron, pesquisador de economia política com interesse especial em fazendas leiteiras, disse que a campanha “Não Cancele a Vaca” reflete o ‘desespero’ da indústria em um clima econômico adverso.
Por mais de duas décadas, a situação econômica dos produtores de leite foi se tornando cada vez mais difícil. Antes da Lei de Atividades Agrícolas de 1993, os produtores tinham a garantia de um preço mínimo do leite através do Comitê de Comercialização do Leite. A entrega a domicílio, que é mais rentável do que a venda no varejo, representava quase metade das vendas de leite em 1995. Hoje não passa de 3%. Desde a dissolução do Comitê de Comercialização, em 1994, os produtores de leite do Reino Unido (RU) passaram a sofrer perdas recordes, com os supermercados empurrando os preços sempre para baixo.
Bem antes da recente crise na Ucrânia, o aumento da inflação e a explosão dos preços de energia tornaram os custos com diesel, fertilizantes e ração animal muito mais caros, chegando a centenas de milhares de libras a mais em fazendas de tamanho médio e pressionando as margens das pequenas. Os produtores de leite perderam 50% de sua renda entre 2018 e 2019, e não recuperaram, desde então. Sem surpresa, isso levou ao êxodo em massa do setor: em 1995 haviam 35.000 produtores de leite no RU; em 2020 eram 12.000.
Esses desafios foram agravados com o Brexit. A Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia (UE), da qual os produtores foram os mais beneficiados, asseguravam que as fazendas pudessem sobreviver, enquanto aumentavam a oferta de leite para manter os preços baixos aos consumidores. Antes do Brexit – no qual 60% dos produtores de leite declararam que iriam votar a favor – pelo menos 40% da renda média das fazendas leiteiras vinham de subsídios da UE. O governo do RU planeja, agora, retirar todo e qualquer subsídio, alegando que eles ajudam na manutenção de pequenas fazendas que não são competitivas.
Se governos anteriores apoiaram os produtores para evitar a concentração de terras, ao remover os subsídios, Heron acredita que o atual governo pretende consolidar as terras agrícolas nas mãos de poucas pessoas na esperança de tornar o setor mais competitivo. Duas décadas atrás, as fazendas leiteiras tinham, em média, 80 vacas; hoje – com fazendas grandes engolindo as pequenas – a média gira em torno de 200 vacas, e o número de ‘megatambos’ (com 700 ou mais vacas) aumenta.
De fato, o mercado de alternativas à base de plantas cresce. Hoje, um, em cada três britânicos, bebe leite vegetal, contra um quarto, em 2020, uma tendência que aparentemente a UE tentou interromper. Em 2017 o Parlamento Europeu baniu as palavras “queijo” ou “leite” para alternativas vegetais. São medidas que procuram tornar as alternativas veganas “menos atrativas”, disse Heron, e estendem-se aos financiamentos de pesquisas que concluem que as dietas veganas são prejudiciais aos seres humanos – por exemplo, que as alternativas ao leite levam à deficiências de vitamina D em crianças, que o leite integral promove um peso saudável e as crianças que bebem leite de vaca crescem mais do que aquelas que bebem alternativas vegetais.
No entanto, se apenas 2 ou 3% da população cortam os lácteos, não são os veganos que reduzem as margens dos produtores de leite; eles se tornam apenas o alvo mais fácil.
As novas gerações estão mais propensas a serem veganas – e considerando que a indústria de laticínios é predominantemente gerida por homens brancos de meia idade, o veganismo tornou-se um campo de batalha de uma guerra intergeracional.
Heron disse que a campanha da Arla não tem muito a ver com o veganismo. Em vez disso, os agricultores lutam para obter lucros e enfrentam críticas do público. Ele disse que a campanha representa a tendência das grandes indústrias de laticínios de “culpar os consumidores” pelo aumento da inviabilidade das fazendas leiteiras, em vez de ver as “estruturas capitalistas de produção que exploram os agricultores assim como os trabalhadores”. Isso é particularmente verdade agora: com o aumento do custo de vida. Heron acredita que os produtores de leite e outros trabalhadores devem procurar por “oportunidades de construir solidariedade” em um futuro para todos, inclusive para as vacas.
















