Chile - Preços internacionais dos lácteos nas alturas, mas com nuvens negras
Lácteos 2022 – O que ocorre no exterior termina afetando os resultados dos agricultores locais, por isso os olhos estão postos nas notícias que chegam da Nova Zelândia e de outros países produtores.

No final de abril os astros se alinharam: a guerra na Ucrânia; a alta dos fertilizantes; a estagnação da produção nos Estados Unidos da América (EUA) e a seca na América do Sul. Tudo jogou a favor de elevar os preços dos lácteos para as alturas.
É preciso ver os números da Nova Zelândia, o motor das exportações de lácteos. Em abril a tonelada da manteiga naquele país chegou a US$ 6.975 a tonelada, um aumento de 21,8% em relação a igual mês de 2021. Se for comparado com o preço de dois anos antes, a alta é de 65,6%.
A tendência se repete com o leite em pó desnatado e o queijo cheddar neozelandês que em abril chegou a US$ 4.613 e US$ 6.350, respectivamente, Para olhar esses números em perspectiva, no começo de 2018 o leite em pó desnatado estava cotado a US$ 1.775 a tonelada, enquanto que o queijo estava a US$ 3.388.
Com a chegada de maio os preços internacionais começaram a mostrar uma ligeira desaceleração, mas sempre com altas históricas.
O que ocorre no exterior termina afetando os resultados dos agricultores locais, por isso os olhos do setor estão postos não somente nos pastos, mas também nas notícias que chegam da Nova Zelândia e de outros países produtores.
Isso sim, no mercado local jogam forças muito poderosas na determinação dos preços. A forte injeção de dinheiro nos bolsos dos consumidores durante o ano passado via aposentadorias e ajudas estatais, impulsionando o consumo de lácteos. Além disso, alguns atores da indústria fizeram uma campanha ativa para atrair produtores e não existe forma mais simples de conseguir isso do que via aumento do preço do leite ao produtor.
Produção mundial estagnada em 2022
Com um mercado internacional estagnado nas últimas semanas, o que esperar dos preços para a temporada 2022/2023?
Para fazer projeções é preciso olhar tanto para a débil produção mundial como para as incertezas da demanda.
Segundo um recente relatório do Rabobank, encabeçado pela analista Emma Higgins o cenário é o seguinte: “no conjunto incomum de circunstâncias, os Big 7 (Nova Zelândia, União Europeia, EUA, Austrália, Brasil, Argentina e Uruguai) lutam para impulsionar sua produção de leite”.
“O clima instável, os altos custos de produção que determinam a erosão das margens, os desafios da cadeia de suprimento mundial de leite e o aumento do apetite da China por produtos lácteos neozelandeses. Em 2021 foi outro ano histórico de exportações para a China, com envios da Nova Zelândia que foram 20% acima dos embarques de 2020”.
A seca afetou a produção de pastagens e grãos no Brasil e na Argentina, onde possuem importantes bacias leiteiras na América do Sul, mas a produção ficou estagnada, sem perspectivas de recuperação muito rápida. Os EUA continuam com sérios problemas de mão de obra, o que limita tanto a produção primária como a elaboração de produtos para o consumo
A alta dos fertilizantes é um peso morto para os agricultores de todo o mundo, desde a Oceania até a Europa, indicando que a produção mundial ficará estagnada em 2022, com uma queda inicial e leve recuperação na segunda metade do ano.
A China, no entanto, avançou ao contrário do resto do mundo. Seu governo fez grandes esforços para isolar o país das altas tanto de fertilizantes como de grãos e outros suplementos.
Adicionalmente, o país passou anos impulsionando o crescimento de seu plantel pecuário, movimento com o qual o Chile colaborou exportando novilhas. Essa situação levou a uma queda de 2,6% no pagamento do leite ao produtor chinês durante o ano. Ainda que, historicamente, esse país tenha custos mais altos do que as importações da Nova Zelândia, atualmente estão em níveis similares, o que deve moderar o incremento das compras no exterior em 2022.
China manda no consumo mundial
O país oriental terá muito o que dizer também na área de consumo. No decorrer de 2022 cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB) foi afetado por algum tipo de isolamento estabelecido em cidades para controlar os surtos de Covid. A grande dúvida é se nos próximos meses existirá uma forte recuperação da demanda por produtos lácteos à medida que a pandemia for sendo controlada ou se novas medidas de isolamento ainda serão necessárias. É preciso levar em conta que a China representa quase um quarto do consumo mundial de lácteos.
Na maioria dos outros países se prevê uma demanda forte, em parte pela maior abertura das economias se comparadas com o ano passado e pela disponibilidade de renda por parte dos consumidores.
“Um risco do lado da demanda mais elevado do que o habitual é criar um entorno operacional muito dinâmico para a renda dos produtores de leite, enquanto que do lado da oferta esperamos que os motores da produção mundial de leite voltem à vida no final da temporada”, diz o boletim do Rabobank.
















