Produção de leite e solução para o corte dos custos
Custos – Os crescentes custos de energia e ração levam produtores de leite do mundo todo a buscar soluções que ajustem os custos para permanecer no negócio. No entanto, o espaço para manobras parece ser muito estreito.

Os vertiginosos aumentos dos custos de ração, energia e combustível estrangulam os orçamentos dos produtores nos últimos meses. Os consumidores se deparam com uma inflação global que não era vista desde a década de 1970. A perda do poder de compra impacta diretamente nas indústrias que não podem repassar os custos de produção para os consumidores. Pressões inflacionárias reduzirão a demanda em países ricos e pobres, disse o Rabobank em seu mais recente relatório.
“Os custos de ração, combustível e fertilizantes ao nível da fazenda continuam subindo acima das taxas de inflação. O impacto disso será sentido pelos agricultores que possuem contratos de longo prazo, e que só expiram no final de 2023”, afirmou Neil Keane, diretor comercial da plataforma de função ruminal Alltech.
De olho na colheita
Os preços da ração caíram ligeiramente nas últimas semanas com a aproximação das colheitas, e isso pode depender muito da produtividade e de como os preços da alimentação irão se desenvolver. No entanto, o tempo até agora não é favorável aos agricultores, com uma anormal onda de calor colocando em risco a colheita em diversos países europeus.
“Alguns países anunciaram redução das expectativas das colheitas em decorrência da seca nas recentes semanas e meses, como a União Europeia (UE) e a Índia, o que pode significar que os preços da ração se manterão elevados. Os agricultores precisam decidir se o alto preço do leite irá cobrir os altos custos dos insumos em sua fazenda especificamente”, acrescentou Keane.
Cenários
Keane estima que houve queda acentuada de fertilizantes utilizados na Irlanda, levando à queda de 3% na produção de leite, na comparação anual, apesar do preço recorde. De acordo com a abordagem da Rede Internacional de Cientistas (IFCN), muitos países produtores de leite desfrutam, no momento, de boas margens. No entanto, Keane alerta que isso pode mudar – dependendo da colheita, das taxas de câmbio e dos preços gerais de energia.
“Os agricultores são aconselhados a olhar os cenários futuros para que possam reagir rapidamente a quaisquer grandes movimentos do mercado, e é claro, que isso impede investimentos de longo prazo. Produtores da Nova Zelândia, Irlanda e outros países com insumos limitados – ou seja, pouca ração comprada – podem estar em melhor situação”, disse Keane, acrescentando que o corte dos custos e o uso cauteloso de insumos serão incentivados, não apenas por razões econômicas, mas também por questões ambientais.
Produção de leite em queda no BIG-7
O aumento dos custos de alimentação e energia afetou a produção de leite no mundo todo. Pela primeira vez, desde 2016, a produção de leite nas principais regiões exportadoras de lácteos, os BIG-7 (Estados Unidos, UE, Nova Zelândia, Austrália, Brasil, Argentina e Uruguai) contraíram na comparação anual por 3 trimestres consecutivos, disse o Rabobank em seu último relatório trimestral, acrescentando que a indústria está a caminho de sofrer contração pelo quarto trimestre consecutivo, no segundo trimestre de 2022, algo que não acontecia desde 2012-2013.
Como explica Danielle Duijndam, analista de laticínios do Rabo Research Food & Agribusiness, na atual situação, os produtores de leite lutam para reduzir custos sem sacrificar a eficácia.
“Como resultado da atual situação, os produtores de leite focam em soluções que cortem custos, mas também de olho na limitação ou perda de produtividade. Em geral, essa é uma questão global, e que produtores de leite de muitas regiões estão tomando”, disse Duijndam, acrescentando que os problemas são diferentes para produtores de leite de diferentes países.
“Em muitos países exportadores e regiões, o aumento do preço do leite é suficiente para compensar os custos elevados. Os produtores de leite não querem cortar muitos os custos para garantir um certo nível de produção de leite. Por outro lado, produtores hesitam em expandir a produção. É preciso lembrar que questões climáticas são também importantes”, disse Duijndam.
Cultivar alimentos em vez de comprá-los
O Rabobank estima que agricultores que cultivam a maior parte de sua ração podem se sair melhor do que aqueles que dependem da ração comprada.
“Embora os produtores de países desenvolvidos sejam, normalmente mais resilientes aos preços elevados, desta vez, o impacto dos preços da energia e dos combustíveis é mais severo provocando mudanças no comportamento do consumidor. Alguns países, como o Reino Unido, estão adotando medidas de proteção às famílias de baixa renda com pagamentos únicos e descontos na conta de energia, devido a perda do poder de compra”, acrescentou o Rabobank.
Ajustando custos
Entre as ferramentas mais úteis para ajudar os produtores de leite no corte dos custos de produção, Duijndam lista:
- Redução da quantidade de concentrados ou mudança para alternativas mais baratas.
- Redução do uso de fertilizantes
- Cultivar mais proteínas para os animais em sua própria terra
- Racionar o uso de ração e energia
Por outro lado, Keane sugere outras medidas que podem ajudar na redução do custo:
- Utilização racional do uso de esterco e chorume, para substituir fertilizantes
- Não oferecer ração e concentrados para vacas de baixa produtividade
- Controle mecânico de ervas daninhas, especialmente no milho
Por razões puramente econômicas, os produtores precisam verificar o que é mais barato, menor uso de diesel, e mais agrotóxicos, ou o uso de mais diesel para gradagem e mais mão de obra.
Trabalhar em estreita colaboração com seu banco sobre (o custo de) empréstimos, seguros, uso eficiente de mão de obra, etc.
Focar na produção de ração dentro da fazenda.
Expectativas sobre o preço do leite
Keane disse que prevê ligeira queda, tanto da produção mundial do leite como da demanda por leite. Portanto, espera-se que os preços do leite permaneçam em um nível elevado, embora não tão alto quanto nos 2 ou 3 últimos meses, o que é promissor para os agricultores.
“A pressão do aumento dos custos continuará, já que as taxas de inflação deverão permanecer elevadas, pelo menos na Europa nos próximos anos”, disse Keane.
“Os custos de energia podem continuar subindo, tudo dependendo do destino do gás da Rússia. Os recentes anúncios da UE pedindo uma redução de 15% no uso de gás pelos estados membros é uma visão das mudanças do que pode estar por vir”, acrescentou o relatório.
















