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Especiais Selectus nº 6451

Argentina – Fome oculta: como resolver um velho problema da humanidade

Cadeia de micronutrientes – No mundo existem problemas graves com a nutrição das pessoas: fome crônica, que envolve todos aqueles que sofrem com a falta de alimentos adequados, que somam 800 milhões.

Fonte: Fonte: La Nacion - Tradução livre: www.terraviva.com.br | Foto de capa: Imagem de dandelion_tea por Pixabay
Argentina – Fome oculta: como resolver um velho problema da humanidade

E, a fome oculta, impactando pessoas que têm acesso a alimentos com baixo teor de elementos essenciais (principalmente minerais e vitaminas necessárias para conservar a saúde humana). Somam mais de 2 bilhões de pessoas. O professor da Universidade de Sabanci, Istambul, Ismail Cakmak, fez palestra sobre o tema: ‘Relação da nutrição com os solos e as plantas’ em um encontro organizado pela Associação Civil Fertilizar.

O especialista destacou que a fome oculta é um problema muito antigo da humanidade, que começou a tomar força quando foram detectadas deficiências de zinco, selênio, ferro e iodo em pessoas que sofriam problemas de saúde, como o mal funcionamento do sistema imunológico e do cérebro, e transtornos no desenvolvimento físico.

O primeiro encontro para enfrentar o problema foi realizado na Virgínia, nos Estados Unidos, em 1943. Outros compromissos de instituições vieram posteriormente, mas a situação permaneceu sem mudanças significativas, mantendo as 800 milhões de pessoas afetadas – que incluem mulheres e crianças-, o que Cakmak qualificou como “uma vergonha mundial”.

O tempo foi passando e mais recentemente, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) propôs nos objetivos do desenvolvimento sustentável, a mitigação da fome oculta e a busca de uma boa saúde para todos. Mas as cifras não reduziram. Então, hoje subsistem os desafios com a fome oculta, a saúde e o bem-estar para todos os habitantes do planeta.

Forte impacto na economia

Cakmak propôs “começar com uma nova forma de pensar e de agir”, para abordar o problema da fome oculta. Explicou que não é somente um problema de saúde, mas que também tem implicações econômicas. “O impacto da deficiência de micronutrientes equivale a aproximadamente 5%, em média, do Produto Interno Bruto (PIB) dos países desenvolvidos”, quantificou. Muitas pessoas com baixa ingestão de microelementos na dieta ocorrem em zonas rurais de muitos países em desenvolvimento, porque os cereais fornecem 75% das calorias ingeridas. Na Europa essa proporção cai para 50% em média, mas sobrevive o problema, pois os grãos oferecem pouca quantidade dos micronutrientes necessários para a saúde humana.

A deficiência de microelementos nos grãos pode ser procedente dos baixos níveis desses elementos dos solos de origem, o que os tornam pouco disponíveis para as plantas. Em outros casos podem ser consequência do esgotamento das terras induzido pelo ser humano.

Sabe-se que ao desenvolver uma cultura, os nutrientes são extraídos dos solos. Por exemplo, o milho extrai quase 500 gramas por hectare de zinco em cada colheita. Estes “efeitos humanos” negativos foram medidos em macronutrientes – por exemplo nitrogênio e fósforo – mas não foram considerados os micronutrientes, que afetam o rendimento e a composição dos grãos, e portanto, a saúde humana.

“Geralmente os produtores se concentram no rendimento, sem prestar a atenção devida à qualidade”, criticou o especialista. “Habitualmente, quanto maior o rendimento, menor a qualidade dos grãos e dos alimentos processados. Ou seja, os sistemas de cultivos não levam em conta a nutrição humana”. Expressando de outra forma: o esgotamento dos solos é observado em todas as latitudes. O maior rendimento reduz a concentração de zinco, selênio e outros micronutrientes, assim como o teor de proteína.

Como exposto no começo, nos últimos 60 anos muitos programas educativos e de capacitação tentaram solucionar o problema da fome oculta, mas não conseguiram. A causa, segundo Cakmak, é que “nenhuma política agrícola, nem de alimentos, incluiu soluções baseadas na fertilização com micronutrientes”. Os programas de fertilização são orientados para os macronutrientes, buscando aumentar o rendimento ou a renda dos agricultores.

“Não foi prestado atenção ao teor nutricional dos grãos para reduzir a fome oculta. Sem os micronutrientes disponíveis no solo, como terão êxito as políticas para resolver a fome oculta?”, se perguntou. “É preciso assegurar um nível adequado de microelementos no solo; a fonte do problema está na terra, que tem uma quantidade baixa destes elementos”, enfatizou o especialista.

Estratégias de correção

Segundo Cakmak, as soluções alternativas à fertilização dos solos não são muito efetivas, Uma abordagem poderia consistir em oferecer suplementos nutricionais para as pessoas com fome oculta. Ou seja, administrar comprimidos diários aos afetados. Por exemplo, 15 mg de zinco por dia. Esta alternativa não é muito prática nem sustentável, sobretudo em zonas distantes das cidades.

Outra possibilidade seria enriquecer artificialmente os alimentos com micronutrientes: enriquecer com zinco o pão, por exemplo. Esta alternativa possui as mesmas limitações que a anterior.

“A real solução para a fome oculta é que os nutrientes essenciais estejam nas plantas antes de ser colhida no campo”, aconselhou.

Depois enumerou distintas estratégias de sucesso para mitigar a fome oculta empregada em distintos países. Por exemplo, na Finlândia havia deficiências importantes de selênio nos solos – um elemento essencial para reduzir os riscos de câncer – que eram transferidas para os grãos e os alimentos processados.

Diante disso, foi tomada a decisão de que aos macronutrientes – nitrogênio, fósforo – seriam adicionados 15 gramas de selênio por quilo. A partir dessa composição, o trigo passou de 15 mg de selênio por quilo para 150 mg/kg. Consequentemente, também aumentou o teor no sangue humano.

A dose recomendada para fertilizar com selênio é baixa. Pode ser aplicada antes do plantio e reforçar com adubações foliares em lotes muito deficitários.

Outro caso foi em Anatólia, Turquia, onde vários ensaios mostraram diferenças significativas na produtividade de trigo entre o controle e os tratados com zinco porque os solos da área são deficientes desse microelemento. Diante disso, foi elaborado um projeto de fertilização, havendo melhor rendimento e composição do grão para a saúde humana, com grande impacto econômico e social. Hoje, 600.000 toneladas de fertilizantes N-P-K contêm também, zinco.

O projeto HarvestZinc começou em 2008 em 15 países – incluindo Alemanha, México e Brasil – e as experiências demonstraram que as estratégias de fertilização chegaram a duplicar a concentração de zinco nos grãos. Foram realizadas aplicações na semente e adubos foliares com este micronutriente, mas também com selênio, ferro e iodo.

Entre os pesquisadores havia dúvidas sobre se a maior quantidade de micronutrientes contidos nos grãos depois da fertilização, seria mantida durante o processamento pela indústria de alimentos. Distintas medições demonstraram que o teor de nutrientes essenciais dos grãos se mantinham nos produtos finais – por exemplo, no pão, bolachas – para o consumo humano.

“Então pode-se levar o zindo dos campos para a mesa, através da estratégia de nutrição de cultivos”, afirmou o palestrante, com base nas medições efetuadas nos 15 países. “Os micronutrientes estão biodisponíveis em alimentos e são absorvidos nos intestino humano”, completou.

Conclusões

Na parte final de sua exposição, Cakmak deixou as seguintes ideais para os assistentes:

- Os sistemas de produção atuais de distintos países não são capazes de proporcionar todos os micronutrientes necessários para a nutrição humana.

- Existem estratégias de fertilização que oferecem soluções para a fome oculta e devem ser consideradas pelas fábricas e usuários de adubos.

- É necessário integral nos programas nacionais para mitigar a fome oculta, que tem grande impacto econômico no PIB.

- Deve haver incentivos para que os produtores possam adotar estas tecnologias. Por exemplo, subsídios para quem adotar estas práticas.

“A Argentina é um grande produtor mundial de trigo e pode oferecer muito para reduzir a fome oculta com suas exportações para países da América do Sul, África e Ásia. Poderia ser um dos primeiros países do mundo a oferecer trigo bio enriquecido com zinco e outros micronutrientes e contribuir para a saúde mundial”, lançou o desafio.

Esse procedimento”poderia ter resultados comerciais vantajosos por contar com um produto Premium – 45ppm de zinco contra 25 do trigo padrão, por exemplo – o que o distinguiria do trigo do Canadá ou o da Austrália”, explicou.

“A fertilização com microelementos é uma prática simples e de baixo custo, que gera uma oportunidade e uma responsabilidade; os governos deveriam oferecer incentivos com políticas específicas para que os produtores decidissem, rapidamente, a adotar estas práticas benéficas para a humanidade”, concluiu Cakmak.

Acesse aqui a matéria na íntegra

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