Quais as razões para a queda da taxa de desemprego?
Desemprego - Algumas vezes comentei neste espaço que a queda na taxa de desemprego, para 8% em junho último, deve ser olhada com cuidado.

Segundo tem mostrado os pesquisadores do FGV IBRE, uma das possíveis explicações para os seguidos recuos na taxa de desemprego se deve à taxa participação da força de trabalho, que começou a se reduzir no ano passado – isso é, pessoas saíram do mercado de trabalho (deixaram de trabalhar e/ou procurar uma ocupação), o que contribuiu para acelerar a diminuição da taxa de desocupação.
É importante assinalar que, apesar da taxa de desemprego estar caindo, a economia brasileira ainda não cresce de forma consistente. Os dados do primeiro trimestre, quando o PIB avançou 1,9%, deveram-se a fatores conjunturais, como o ótimo desempenho da agropecuária, que inflou os dados, fato que não vai se repetir pelo fim da safra, especialmente de soja, que teve papel preponderante nesse crescimento.
Então, o que explica essa redução acentuada na taxa de desocupação?
Em artigo a ser publicado na próxima edição da revista Conjuntura Econômica, Nelson Marconi, professor da FGV EAESP, aponta algumas razões para isso, afirmando que há uma correlação entre as variações do PIB e da taxa de desemprego. “Nos últimos anos, nota-se que o indicador de desocupação demorou um pouco mais para reagir à melhoria do nível de atividade; mas quando isso ocorreu, a partir de meados de 2021, deu-se de forma intensa”, afirma Marconi no artigo.
De fato, o número de pessoas fora da força de trabalho aumentou 3,6% em junho de 2023 em relação ao mesmo período do ano anterior. Por consequência, menos pessoas procuraram emprego. Para os pesquisadores do FGV IBRE que acompanham o mercado de trabalho – ver o Observatório da Produtividade Regis Bonelli –, a elevação dos valores do Bolsa Família pode ter colaborado para esse comportamento.
Em seu artigo, Marconi enfatiza a necessidade de analisar a composição do emprego: entre março e junho deste ano, o setor público contribuiu fortemente para a expansão das ocupações e contratou mais que o setor privado (445 mil vagas, contra 388 mil neste último).
Outras conclusões de Marconi:
Essas contratações não são de empregos formais, mas principalmente sem carteira, portanto temporário e com vínculo precário, característico de governos locais, desassociado da dinâmica de um processo de crescimento econômico. Nem podemos dizer que se sustenta a médio prazo, pois o fluxo de contratações temporárias no setor público depende muito do comportamento da arrecadação tributária.
Ao se analisar uma série mais longa sobre a evolução da composição das ocupações, observamos o crescimento da participação dos vínculos sem carteira tanto no setor privado como no público (juntamente com os chamados conta-própria), fato que contribuiu para a precarização e volatilidade que vêm marcando nosso mercado de trabalho.
Outro conjunto de dados que contribui para a análise é a evolução das ocupações segundo os grupamentos de atividades do trabalho principal. Novamente, sobressai o comportamento do setor que engloba a administração pública, educação e saúde na elevação de postos de trabalho durante o segundo trimestre deste ano: 716 mil ocupações, de um total de 1,087 milhão verificadas no período, confirmando que o aumento registrado não está relacionado a um ciclo de retomada das atividades produtivas no setor privado, mas à elevação de contratações no setor de serviços intitulado “não-mercado”.
Esse comportamento do mercado de trabalho agravará as disparidades de renda e bem-estar de nossa população. Nota-se que o setor que engloba a administração pública, saúde e educação também elevou a sua participação na força de trabalho, mas como é uma atividade classificada como não-mercado, não responde diretamente à dinâmica do nível de atividade e sua influência sobre a estrutura produtiva de uma economia, ao menos em um primeiro momento.
Não se pode afirmar que a recente redução da taxa de desemprego está associada a um crescimento do nível de atividade, mas a um cenário de elevação da contratação temporária no setor público, possivelmente em governo locais, e que pode inclusive estar associada à ampliação de serviços de educação e saúde.
No longo prazo, deve haver continuidade do processo de precarização e crescimento das disparidades no mercado de trabalho, com a criação conjunta de vagas em setores modernos e atrasados do ponto de vista tecnológico. Esse problema só será solucionado com inovações, a predominância de setores que gerem maior valor adicionado na estrutura produtiva e o retorno do crescimento econômico sustentado.
















