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Especiais Selectus nº 6768

Leite sintético – a situação do mercado global

Leite sintético – As startups de alimentos estão utilizando tecnologias de fermentação de precisão para fabricação de alternativas ao leite de vaca. O segmento continua com um futuro incerto, já que os consumidores conservadores não irão adotar de imediato, produtos sintéticos.

Fonte: Fonte: Dairy Global – Tradução livre: www.terraviva.com.br | Foto de capa: Imagem de jean-bernard Devaux por Pixabay
Leite sintético – a situação do mercado global

Embora carnes de laboratório já existam há algum tempo, não é muito frequente os consumidores falarem a respeito dos lácteos.

“Leite sintético ainda é uma indústria emergente, com muitas startups trabalhando com pesquisas e desenvolvimento. No entanto, algumas empresas estão pavimentando o caminho lançando produtos no mercado”, comenta Milena Bojovic, doutoranda da Universidade Macquarie, na Austrália. Ela destaca que a empresa Perfect Day, com sede nos Estados Unidos da América (EUA) é um exemplo de startup que está atuando nesta área.

“Estamos mudando o processo, não o alimento” – este é o slogan da Perfect Day, refletindo a principal característica das tecnologias de fermentação de precisão. Enfim, apresentam produtos indistinguíveis do leite de vaca. O leite dos biorreatores terão o mesmo sabor, aparência, textura e valor nutricional.

O leite obtido através da fermentação de precisão, chamado de “leite sintético”, é amigável ao meio ambiente. “Como esta nova forma de proteína animal pode ser produzida sem vaca, existe uma importante oportunidade de reduzir as emissões de metano e carbono, a poluição da água, do uso da terra e preocupações relacionadas ao bem-estar animal”, explica Bojovic.

Produto chamado de ‘leite’

Em junho de 2023, a Federação Nacional dos Produtores de Leite (NMPF) pediu ao Departamento de Alimentos e Drogas dos EUA (FDA) para proibir as startups, como a Perfect Day, de chamar de “leite” os seus produtos.

Os produtores de leite dos EUA insistem que chamar os produtos obtidos através da fermentação de precisão de leite é tecnicamente incorreto. Embora esses produtos possam conter as proteínas do leite, eles não atendem os padrões federais para identidade do “leite”. As indústrias estadunidenses querem que os novos produtos tenham uma rotulagem que demonstre a sua natureza sintética. Entre as opções propostas está “bebida de soro de leite sintético”.

Bojovic diz que a questão de como essas novas proteínas serão rotuladas, comercializadas e usadas em produtos finais será um desafio para o setor nos próximos anos.

O crescimento do segmento de fermentação de precisão pode pressionar a produção convencional de leite. No entanto, as questões relacionadas à regulamentação podem somente atrasar, mas é pouco provável que impeçam a expansão do segmento de leite sintético. “Se o leite sintético não comprometer a adesão dos consumidores através de preço justo, sabor e textura, penso que ele se enquadrará perfeitamente ao sistema atual de alimentação”, acrescentou ela.

O conservadorismo persiste

Em novembro de 2023, o governo italiano baniu a venda de carnes produzidas em laboratório, emitindo um sinal claro de que os produtos pecuários procedentes de determinados processos não são desejáveis no país.

“A Itália é o primeiro país do mundo que ficará a salvo dos riscos sociais e econômicos dos alimentos sintéticos”, afirma Francesco Lollobrigida, ministro da Agricultura da Itália.

A sociedade italiana permanece cética em relação à carne e ao leite sintéticos, enquanto que a política de alguns outros países europeus, incluindo Hungria e Polônia, também consideram adotar medidas contra os alimentos cultivados em laboratório.

O conservadorismo dos consumidores também será prejudicial às perspectivas do leite sintético em mercados fora da União Europeia (UE). Os consumidores russos continuam cautelosos em aceitar qualquer produto alternativo, comentou Maria Zhebit, diretora do departamento de comunicação da União Russa de Produtores de Leite Soyuzmoloko.

O preço permanece sendo um fator determinante para os consumidores quando se trata da escolha de um alimento, disse Zhebit, se referindo ao fato do leite sintético custar, substancialmente, mais caro em comparação com o leite de vaca.

“Na Rússia, os regulamentos para as emissões de gases de efeito estufa (GEE) estão sendo adotados, mas a pecuária tem sido, até agora, excluída. As emissões podem ser reduzidas pelo aumento da produtividade animal, o que vem sendo observado pelos principais segmentos industriais”, afirma Zhebit.

A expectativa é de que a demanda do mercado global de lácteos cresça entre 2 e 3% e, de acordo com Zhebit, não se pode prever qualquer redução na produção de leite de vaca em um futuro próximo.

Futuro inevitável

Embora as perspectivas de curto e médio prazo para o segmento do leite sintético não estejam claras, analistas expressam a confiança de que os produtos obtidos através da fermentação de precisão ganharão espaços no mercado no decorrer do tempo.

Em 2019, um relatório sobre os lácteos sintéticos feito pela Rethinkx, um grupo de analistas independentes, concluiu que até 2030, a indústria da fermentação de precisão irá criar pelo menos 700.000 postos de trabalho nos EUA. Aliado à pressão para redução das emissões de carbono, os custos mais baixos para elaboração do leite sintético poderá revolucionar a indústria global de laticínios.

“Dada às questões evidentes das alterações climáticas e ambientais que enfrentamos, precisamos de intervenções efetivas e eficientes”, acrescentou Bojovic.

As tecnologias de fermentação de precisão estão se tornando mais avançadas, e a expectativa é de que o leite sintético se torne mais acessível ao longo do tempo. Uma startup, com sede na Austrália, a All G Foods, lançou planos de tornar seu leite sintético mais barato do que o leite de vaca no curto prazo.

“Novas proteínas como o leite sintético oferecem outro caminho para aumentar a produção sustentável de alimentos”, finalizou Bojovic.

Acesse aqui a matéria na íntegra

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