Onde estamos no uso de açúcares e adoçantes em alimentos processados?
Açúcar/França – A utilização de açúcar e edulcorantes nos alimentos processados é um assunto complexo que gera muita atenção e debate dentro da indústria agroalimentar, principalmente em decorrência de suas implicações sobre a saúde.

Para prevenir a obesidade e a diabetes, a redução de açúcar adicionado aos alimentos é uma grande questão. Açúcar, glicose, xaropes de glicose-frutose, mel, sucos de frutas, caramelo, adoçantes, etc. A Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, Ambiental e do Trabalho (ANSES), fez um balanço completo da evolução na utilização dos ingredientes adoçantes ou vetores de sabor doce em bebidas e alimentos processados. A ANSES revisou a lista dos ingredientes em mais de 54.000 produtos disponíveis do mercado entre 2008 e 2020 e listados pelo Observatório da Alimentação (Oqali). O Oqali faz o monitoramento global dos alimentos medindo a evolução da qualidade nutricional dos produtos processados de forma objetiva, e trabalhou junto com o INRAE (Instituto Nacional de Pesquisa para a Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente) e a ANSES.
O balanço mostra que a maioria dos produtos contêm ao menos um ingrediente adoçante ou vetor de sabor adocicado, mesmo em produtos salgados. A Agência observa uma redução na utilização de ingredientes adoçantes no decorrer dos últimos dez anos, especialmente xaropes de açúcar e edulcorantes. Por fim, a Anses destaca que é possível reduzir o teor de açúcar reformulando a composição dos produtos.
Açúcar adicionado, utilizações variadas difíceis de detectar
Os ingredientes ou vetores de sabor doce incluem uma infinidade de componentes designados por numerosos termos na embalagem: sacarose, açúcar, xarope de glicose-frutose, aspartame, dextrose, xarope de melaço, suco concentrado de frutas, etc. Este estudo é uma fotografia inédita e sem precedentes sobre a presença desses ingredientes dentro dos alimentos na França. De fato, todos os ingredientes adoçantes foram levados em conta: açúcares adicionados, mas também os ingredientes de sabor doce que não fornecem energia, como os edulcorantes. O objetivo era identificar as diferentes formas de ingredientes adoçantes utilizados nos produtos processados e especialmente em categorias nas quais eles não são necessariamente esperados.
A lista de ingredientes nos mais de 54.000 produtos recolhidos no mercado francês entre 2008 e 2020 foram examinados: sorvetes e sobremesas, produtos de confeitaria, barras de cereais, suco e néctar, produtos lácteos, biscoitos e bolos, bebidas não alcoólicas, refeições preparadas, molhos, charcutaria, etc. O estudo consistiu em medir a frequência de utilização dos ingredientes adoçantes com base nos rótulos, dividindo-os em 11 classes previamente definidas.
Pelo menos três quartos dos produtos possuem ao menos um ingrediente adoçante ou vetor de sabor adocicado
De acordo com os dados mais recentes, a maioria dos produtos estudados (77%) possuem pelo menos um ingrediente adoçante ou vetor de sabor doce. Esses ingredientes estão presentes também em categorias de produtos salgados. A sacarose, equivalente ao “açúcar de mesa”, é encontrada em mais da metade dos produtos estudados (58%).
O estudo se interessou ainda pela combinação de ingredientes: 59% deles utilizam uma classe ou combinação de duas classes de ingredientes adoçantes ou vetores de sabor doce. A agência observa uma redução significativa do percentual de produtos contendo esses ingredientes no decorrer dos últimos dez anos. As mais fortes reduções foram verificadas nos produtos salgados. Também a utilização de edulcorantes foi reduzida significativamente, em particular o aspartame que em dez anos passou de 1,8% para 0,4% dos produtos.
Essa tendência é em parte ligada à reformulações de produtos pelas indústrias. As composições foram revistas para privilegiar os ingredientes mais comuns, como o açúcar branco ou “sacarose”, ou que são percebidos como mais “naturais”, como os sucos de frutos. Os xaropes de açúcar ou edulcorantes sintéticos são claramente menos utilizados.
“Esse estudo não avalia as quantidades utilizadas, porque elas raramente são indicadas nos rótulos. Os resultados, portanto, não indicam forçosamente uma diminuição do teor de açúcar total dos produtos. De fato, é importante lembrar que um produto utilizando menos ingredientes adoçantes ou vetores de sabor doce que antes não, forçosamente, tem um menor teor de açúcar. A supressão de um ingrediente pode ser acompanhada pela maior proporção de outros ingredientes”, explica Julie Gauvreau-Béziat, chefe da unidade do observatório alimentar. É por isso que a Anses e o Inrae estão realizando estudos setoriais no âmbito da Oqali sobre os níveis de açúcar nos grupos de alimentos que contêm mais açúcar, como as bebidas. Para um determinado tipo de produto, os estudos mostram uma variedade significativa de teores de açúcar entre as marcas.
Consumo de açúcar e saúde
O consumo elevado de açúcar que fornece energia acima das necessidades pode, no longo prazo, levar ao sobrepeso, obesidade, aumentar o risco de desenvolver diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos cânceres.
Em seu parecer de 2016, a ANSES recomendava não ultrapassar o consumo de 100 g de açúcares totais por dia para adultos e adolescentes. Cerca de 20% dos adultos e 25% dos adolescentes entre 13 e 17 anos ultrapassam esse valor na França. No parecer de 2019 sobre a orientação para a alimentação infantil, a Agência considera que as crianças de 4 a 7 anos não devem ultrapassar 60 gramas por dia.
Entre os produtos estudados (27 categorias de alimentos) a proporção de produtos que apresentam pelo menos um ingrediente para adoçar ou um vetor de sabor doce diminui significativamente de -5,5 pontos entre os monitorados (durante um período de 3 a 10 anos). Note-se, no entanto, que esta proporção permanece muito elevada, uma vez que 81% dos produtos monitorados apresentavam pelo menos um ingrediente adoçante ou vetor de sabor doce.
Com exceção da classe de sucos e concentrados de frutas e do mel, nove outras classes de ingredientes adoçantes ou vetores de sabor doce parecem, de acordo com a Anses, terem sido usadas significativamente menos entre o estudo de linha de base e o monitoramento. Certas classes apresentam fortes reduções, em particular os xaropes (-7,9 pontos), outros açúcares (-7,8 pontos) assim como lactose (-7,6 pontos). É preciso observar que a classe sacarose diminui também de forma significativa (-1,9 pontos) mas, continua sendo a classe mais usada tanto na linha de base, como no monitoramento, sendo encontrada em 64% e 62% dos produtos, respectivamente). Por outro lado, os sucos e concentrados de frutas são as únicas classes de ingredientes cujo uso aumentou significativamente (+2,4 pontos).
Inúmeras reformulações
Essas tendências de queda podem ser explicadas, em parte, pelas reformulações de produtos. Além disso, a mudança na oferta de produtos pode explicar parcialmente a queda no uso de ingredientes adoçantes ou vetores de sabor doce. Os novos produtos usam menos desses ingredientes do que os produtos mais antigos que foram retirados do mercado.
















