Estará a Fonterra se afastando das marcas de consumo e do valor agregado a elas associado?
Fonterra – No dia 16 de maio a Fonterra anunciou o plano de vender todas as unidades de comercialização de bens de consumo, surpreendendo todas as pessoas ligadas à indústria de laticínios.

Se a proposta for totalmente implementada, a Fonterra, no futuro, produzirá apenas ingredientes, alguns que serão vendidos ao setor de serviço de alimentação e o restante como mercadoria. Na linguagem de marketing, a Fonterra será uma empresa B2B (business to business), sem qualquer produto voltado para o consumidor.
A Fonterra chamou o movimento de mudança radical, mas é mais do que isso. É uma reviravolta.
As marcas nacionais e internacionais da Nova Zelândia incluem Anchor, Fernleaf, Mainland, Chesdale, Fresh’n Fruity, De Winkel, Perfect Italiano, Western Star, Anlene, Anmum, dentre outras.
O desinvestimento proposto também inclui a venda de três unidades de processamento de consumo na Nova Zelândia, nove plantas na Austrália e cinco outras plantas no Sudeste Asiático.
No primeiro semestre do ano fiscal 2023/24, esse conjunto de unidades gerau um faturamento de NZ$ 2,7 bilhões e lucro líquido de NZ$ 190 milhões. Apenas o retorno semestral.
A Fonterra estima que a venda poderá gerar NZ$ 3,4 bilhões.
Cerca de 15% do leite total da Fonterra é destinado às unidades a serem alienadas para produção de suas marcas. Mais da metade desse volume é de leite australiano, um produto particularmente valioso, porque é fornecido durante todo o ano, enquanto que o leite da Nova Zelândia é sazonal.
Nos últimos anos, a Fonterra deixou explícito que não pretende mais “conquistar o mundo”. A partir de então se desfez de suas operações sul-americanas no Chile e no Brasil, onde comprava e processava leite produzido localmente. Também vendeu suas fazendas na China, além de sua participação na Beingmate. Também vendeu suas ações da empresa europeia DPE Pharma por NZ$ 554 milhões, em janeiro de 2020.
Em 2022, houve até a cogitação de alienar suas operações australianas de fornecimento e processamento de leite. No entanto, a Fonterra afirmou na ocasião que as operações australianas que processam leite australiano e neozelandês, eram de considerável importância para atingir as metas de 2030. Parecia que o assunto estava encerrado.
Até agora, a política de desinvestimento da Fonterra estava relacionada, principalmente, à redução do processamento de leite produzido em outros países. No entanto, este último plano envolve a retirada do leite da Nova Zelândia dos produtos de consumo.
No anúncio, a cooperativa afirma que “a Fonterra não é detentora do conhecimento necessário para os negócios associados ao consumo, e o desinvestimento poderá dar a oportunidade para que os novos proprietários apliquem seus conhecimentos e recursos para aproveitar todo o potencial do negócio”.
Desde 2007, o conselho da Fonterra sempre se dividia entre os favoráveis ao afastamento do consumo, ou pelo menos que fossem constituídas duas empresas, cada uma com um segmento.
E, no momento, o desinvestimento do negócio de consumo pode ser a única opção disponível.
No entanto, o foco 100% no B2B pode representar o risco da Fonterra se tornar dependente das empresas que comprem seus ingredientes.
Teoricamente isso pode ser bom, em um mundo estável. No entanto, em um mundo dinâmico e em constante mudanças, o sucesso da Fonterra dependerá do sucesso das empresas que compram seus ingredientes.
Mas, talvez o mais importante, é que uma vez focada apenas nos ingredientes, a venda de seus ativos do setor de consumo não será uma operação reversível, exceto a custo muito elevado.
Por isso, seria bom pensar, novamente, em duas empresas. O atual segmento ficaria com a Fonterra na Oceania, incluindo as instalações do Sudeste Asiático. E, uma segunda, com sede, provavelmente em Victoria, com ações da Fonterra e investidores externos. Ela teria seu próprio conselho e forneceria o leite australiano em 12 meses do ano, e também ingredientes de origem neozelandesa.
















