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Especiais Selectus nº 6918

Fonterra é acusada de “greenwashing” para impressionar grandes compradores estrangeiros

Greenwashing – Um procedimento cada vez mais popular vem ganhando força. Os gigantes internacionais da alimentação adotam objetivos de “agricultura regenerativa”. Mas quão confiável são os critérios definidos por eles para ser considerado regenerativo? E o que poderia ser lavagem ecológica da imagem?

Fonte: Fonte: Rural Life / Tradução livre: www.terraviva.com.br | Foto de capa: Photo by Marc Wieland on Unsplash
Fonterra é acusada de “greenwashing” para impressionar grandes compradores estrangeiros

Um relaxante céu azul com as palavras “Agricultura Regenerativa” surge nessa cena bucólica de vacas livres em pastagens. Embaixo está o subtítulo da apresentação “Nossa vantagem natural”. No canto superior o logo da Fonterra

A apresentação diz que os agricultores da Nova Zelândia estão utilizando práticas – como vacas livres em pastagens – consideradas como parte de uma agricultura regenerativa.

Mas em vez de inspirar, a apresentação de março irritou os defensores da agricultura regenerativa e da qualidade da água.

“Totalmente greenwashing” disse Mike Joy, um acadêmico conhecido por sua defesa da água doce. “Nós nos afastamos o máximo possível da agricultura regenerativa”.

Ele disse que a apresentação faz a Fonterra parecer ridícula. Adam Canning, da Universidade James Cood da Austrália, é um especialista em agricultura regenerativa e trabalhou estreitamente com produtores de cana-de-açúcar. “É totalmente greenwashing” disse ele. “Penso que estão tentando mostrar a marca e controlar a narrativa segundo a qual eles já praticam uma agricultura regenerativa, e dizem, por exemplo, que suas pastagens rotativas são regenerativas – e de concreto, este não é o caso”.

Agricultura regenerativa é um termo cunhado 30 anos atrás para descrever um tipo de fazenda totalmente diferente do que é praticado pelas fazendas industriais da América do Norte.

Apesar de três décadas de história, uma definição internacionalmente aceita de agricultura regenerativa continua difícil e até certo ponto, controversa. Existe a preocupação de que uma definição muito precisa não será aplicável a diferentes tipos de agricultura de regiões diversas. Em vez disso, foram recomendados princípios e objetivos que dão aos agricultores a flexibilidade de adaptar práticas às suas fazendas. Por outro lado, existe a preocupação de que a utilização de uma definição fundamentada sobre princípios ambiciosos deixará tanta margem de manobra que o termo passará a ser uma lavagem de imagem ecológica.

Joy disse que agricultura regenerativa é a fazenda onde a terra se regenera. “Você não precisa trazer coisas de fora, elas se regeneram por dentro, então você tem um ciclo fechado”.

Algumas das práticas para atingir a agricultura regenerativa são: maior número de plantas nas pastagens, alimentação do rebanho em pastagens e não serem alimentados em currais, e garantir que o solo esteja sempre “coberto” e não deixado limpo após uma aração.

Em teoria, a tradicional forma dos agricultores neozelandeses está mais próxima dessas práticas do que em outros países onde as vacas são confinadas em estábulos. E, o sistema de alimentação em pastagens, como destacado pela Fonterra, é apenas um dos requisitos, afirma Joy. Para uma agricultura regenerativa é preciso muito mais do que apenas vacas nas pastagens.

Canning concorda, e disse que os agricultores regenerativos praticam o que pode ser chamado de “pastagem gerenciada adaptativa”.  

“Esse é um outro nível, e os animais fazem rotação de pastos em pastos”.

O crescimento intensivo da produção de leite aumentou a capacidade das pastagens de produzirem alimentação para o gado, diz Joy. “A única maneira de ter tantas vacas na mesma área de terra é trazendo muitos insumos de fora”.

Os insumos aos quais ele se refere incluem fertilizantes para impulsionar o crescimento das pastagens, o nitrogênio sintético procedente de combustível fóssil, fosfato importado e alimentos adicionais como a torta de palma.  

Estima-se que o nitrogênio aplicado nas fazendas da Nova Zelândia em forma de fertilizantes disparou de 62.000 toneladas em 1996 para 452.000 toneladas em 2019, 629% de aumento em pouco mais de duas décadas.

Em 2023, mais de 1,7 milhões de toneladas de extrato de palma foram importadas da Indonésia e da Malásia, onde florestas tropicais foram derrubadas para plantio de palma. Em 2022, mais de US$ 371 milhões em fertilizantes contendo fosfato foram importados.

Não tem como você ser regenerativo se usa combustível fóssil para produzir os insumos de energia no seu sistema. Da mesma forma, se você importa do outro lado do mundo fosfato e extrato de palma. Com todos os danos que isso acarreta, essas práticas não podem ser consideradas regenerativas. É exatamente o oposto”, disse Joy.

Canning concorda que a verdadeira agricultura regenerativa evita coisas como nitrogênio sintético, utilizado intensamente pela agricultura neozelandesa.

Joy disse que não está surpreso de ver a Fonterra destacar o sistema de pastagens como uma vantagem e alegar que seja uma agricultura regenerativa. “Muitas vozes do setor agrícola da Nova Zelândia dizem o tempo todo que já somos regenerativos e não precisamos mudar nada”.  

“Esta realidade está tão longe e não é engraçado”, acredita Joy.

Existem agricultores na Nova Zelândia que abraçaram a agricultura regenerativa muito antes da Fonterra reivindicar essa alegação como sua, disse ele. “Algumas pessoas realmente conscientes se envolveram na prática regenerativa e as grandes empresas assumem e transformam esse esforço em uma farsa”.

Greenwashing – prática de empresas que utilizam falsas alegações de amigáveis com o meio ambiente para capitalizar em cima da crescente demanda por produtos sustentáveis.  

Acesse aqui  a matéria na íntegra

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