“A desglobalização começou antes mesmo de Trump”
“Desglobalização” – As transações comerciais estão em baixa há cinco anos, ressalta o economista especializado nos mercados emergentes do banco norte-americano Citi, David Lubin. Para sobreviver, essas economias devem se apoiar, preferencialmente, em seus mercados internos: as políticas nacionalistas defensivas como a russa serão muito mais eficazes dentro desse contexto do que o liberalismo dos países latino-americanos. A eleição de Donald Trump nos fará entrar em uma era de protecionismo e de guerras comerciais?
A política do futuro presidente norte-americano é desconhecida, e não se sabe se ele irá se afastar da retórica de campanha. Os mais expostos a um eventual endurecimento das relações comerciais internacionais serão, indubitavelmente, os países emergentes. David Lubin, economista responsável pelos mercados emergentes do Citi, explica assim: “Os mercados emergentes como uma classe de mesmos ativos só existem por causa da globalização. A presidência de Trump tentando desfazer a globalização só pode ser uma má notícia para eles. São economias menores, que em geral dependem de um intenso crescimento das trocas comerciais e de movimento sólidos de capitais e de pessoas pelo mundo.” Estas foram as declarações desse economista diplomado em Oxford, constatando o recuo atual. “O enfraquecimento do comércio mundial vem ocorrendo desde 2012. Depois de cinco anos de queda, o crescimento dos volumes negociados no mercado mundial é inferior ao crescimento do PIB mundial. O comércio mundial obteve um crescimento explosivo nos últimos trinta anos. Esse impulso sem precedentes ocorreu depois da Segunda Guerra mundial. Assim sendo, a “desglobalização” começou, mesmo antes da presidência Trump”.

(Crescimento do comércio mundial de mercadorias em volume e crescimento do PIB mundial desde 1981. Fonte: OMC)
Somente a Índia está preparada para sobreviver
Problema: as economias emergentes têm pouca margem de manobra para recorrer a recursos públicos para compensar esses efeitos. Elas são susceptíveis de diminuir, pois não podem se sustentar sobre suas próprias forças: “Para sobreviver à “desglobalização”, os países emergentes devem atender diversos requisitos: uma taxa de poupança elevada, um balanço de pagamento corrente estruturalmente excedente e um importante mercado interno, que possa apoiar um consumo interno, mais do que uma demanda externa. Apenas um país que atende todos esses itens: a Índia”.
Os países emergentes desenvolveram dois tipos de estratégias para resistir aos efeitos devastadores dessa desglobalização: o liberalismo econômico ou o nacionalismo econômico. “O Brasil, a Argentina e o Peru estão com novos governantes que aplica uma política liberal, com os bancos centrais dirigidos por velhos do MIT, que seguem um esquema bastante tradicional de estabilização das finanças públicas para recuperar a confiança dos mercados para encorajar o fluxo de capital, na esperança de recriar um círculo virtuoso. É um esquema anacrônico, que lembra os anos 90, com a crise argentina e o consenso de Washington. Por outro lado, a Rússia, a Hungria e a Polônia escolheram o nacionalismo econômico, que difere do populismo por ter uma abordagem muito mais defensiva: reduzir ou eliminar a dependência do capital internacional. A Rússia assume perfeitamente essa política: seu objetivo é maximizar o excedente de sua balança”.
O nacionalismo econômico é mais “eficaz” que o liberalismo
Este economista, cujo trabalho consiste em aconselhar investidores sobre em qual país aplicar seu dinheiro, sem perder e se possível ganhando, lamenta por sua própria constatação: “A minha preocupação é que as estratégias nacionalistas funcionam melhor nesse ambiente”.
O que quer dizer é que essas políticas não são boas para o crescimento e são aplicadas de forma “brutal”: a Rússia, por exemplo, congelou os gastos públicos em termos nominais em relação à inflação. E estas tensões sobre o comércio mundial tendem a se auto-alimentar. O economista se mostra pouco otimista.
“Desde 2012, observou-se, pela primeira vez, sinais visíveis de protecionismo: existem mais medidas restritivas que anúncios de liberalização. Ou seja, o protecionismo aumenta com a queda do comércio mundial: quando o bolo se torna menor, os países lutam para manter o seu pedaço. Isto cria um círculo vicioso”.
















