ESPECIAIS
O valor da pecuária se estende muito além das porteiras das fazendas
Uma das
vantagens de trabalhar com as mídias agrícolas é poder alcançar perspectivas
além das fronteiras de nosso país. Embora os sistemas agrícolas sejam únicos,
os desafios com os quais a agropecuária é confrontada são cada vez mais universais.
São políticas climáticas, volatilidade dos mercados, saúde animal, falta de mão
de obra ou elevados custos de produção, que os agricultores do mundo inteiro
devem superar para chegar ao mesmo objetivo: explorações rentáveis e capazes de
resistir às incertezas do futuro.
Por
isso, os últimos debates da União Europeia (UE) sobre a pecuária merecem toda
nossa atenção.
Apesar
dos sistemas de produção e os contextos políticos muito diferentes, muitas das
conclusões que emergem das discussões na Europa ganham relevância para o setor
primário de todo o mundo.
O debate
centrado na nova estratégia da Comissão Europeia para a pecuária mudou. Em vez
de questionar se a pecuária tem futuro, políticos, industriais e agricultores
se perguntam como os sistemas se tornam mais resilientes, mais eficientes e
menos dependentes de insumos externos. Isso representa uma importante
distinção.
Por
muito tempo, a discussão sobre a pecuária girava, quase que exclusivamente centrada
nos impactos ambientais das emissões. A Europa começou a reconhecer que a
produção pecuária não pode ser vista isoladamente da segurança alimentar, das
economias rurais, biodiversidade e da resiliência estratégica.
O
Comissário Europeu para a Agricultura e Alimentação, Christoph Hansen, recolocou
no devido lugar a contribuição do setor dentro de seu contexto. A pecuária,
destacou ele, gera anualmente € 400 bilhões de faturamento e oferece emprego
para aproximadamente sete milhões de pessoas em toda a Europa. Esse mesmo setor
é submetido a pressões sobre mudanças climáticas, doenças animais e de objetivos
ambientais cada vez mais ambiciosos, fatores que contribuíram para redução de
cerca de 10% no efetivo de rebanhos na última década.
Os
números são significativos, mas a mensagem subjacente é ainda mais importante.
A Europa reconheceu que a redução do rebanho sem considerar as consequências
mais amplas cria um conjunto de desafios diferentes. A produção de alimentos
não pode simplesmente desaparecer. O emprego rural não será substituído num
passe de mágica. As indústrias, os prestadores de serviços, revendedores de
máquinas, empresas de transporte e inúmeros setores adjacentes dependem de
atividades agropecuárias produtivas. Essa é uma lição que a Nova Zelândia deve
ter sempre em mente ao continuar debatendo o uso da terra, as políticas ambientais
e o futuro da pecuária baseada em pastagens.
Uma das
conversas mais interessantes no programa veio de uma fazenda de produção de
leite da Bélgica que fundamentalmente mudou seu negócio logo após a crise do
leite de 2009. Em vez de aumentar a escala, a família focou em ser mais autossuficiente.
A forragem passou a ser produzida na fazenda, o esterco fertiliza o solo, os
animais colhem seu pasto e a comercialização direta reduz a dependência de
processadores externos. É um sistema agrícola projetado para reduzir a
exposição à volatilidade dos custos de insumos, ao mesmo tempo em que aumenta a
resiliência do negócio.
Camille
Cosmon resumiu assim: “Simplesmente não faz sentido que sejamos dependentes de
soja cultivada do outro lado do mundo. Em muitos aspectos, trata-se de voltar
ao início. O que uma vaca come? Pasto”.
Uma
visão característica de um produtor antigo da Nova Zelândia. Nossa vantagem
competitiva sempre foi baseada no uso mais eficiente das pastagens. No entanto,
assim como grande parte do mundo desenvolvido, nos tornamos cada vez mais
dependente de insumos importados: ração, fertilizantes, combustíveis, dentre
outros. Não é errado adotar novas tecnologias ou melhorar a produtividade, mas
a Europa retomou o foco da autossuficiência, uma oportunidade de nos lembrarmos
de que a resiliência frequentemente vem com redução da dependência do
desnecessário, e não da contínua adição de complexidade.
Fonte: interest.co.nz Tradução livre: www.terraviva.com.br
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