Os resíduos lácteos podem se converter em bioplásticos e alimentos vegetais
Resíduos lácteos – A atividade leiteira gera uma grande quantidade de resíduos orgânicos, incluindo águas residuais e soro de leite, que agora são utilizados para criar produtos como os bioplásticos.

O setor lácteo é um dos principais impulsionadores da economia nas zonas rurais da Europa. Entretanto, produzem grande quantidade de dejetos na limpeza e processamento.
As águas residuais e os resíduos do leite, que normalmente são eliminados, estão sendo transformados, agora, em novos produtos, como fertilizantes ricos em fosfatos e bioplásticos. Em 2018 a União Europeia (UE) produziu 172,2 milhões de toneladas de leite cru e a expectativa é de que a demanda aumente nos próximos anos, especialmente para exportação.
A população regional e internacional depende dos produtos lácteos, mas, estes formam parte dos sistemas alimentares que têm um grande impacto no planeta. Segundo a Comissão Europeia (CE) “os sistemas alimentares continuam sendo um dos principais impulsionadores das mudanças climáticas e degradação do meio ambiente”.
A estratégia “Da granja à mesa” apresentada em maio, tem por objetivo modificar o sistema alimentar da região para proporcionar melhorias ambientais, sanitárias e sociais e “assegurar que a recuperação da crise do Covid-19 nos coloque em um caminho mais sustentável”.
Uma forma de conseguir é agregar valor aos resíduos. O setor lácteo é o segundo maior segmento agrícola da UE com mais de 12.000 unidades de processamento e produção de leite nos estados membros. A cada litro de leite produzido são gerados 2,5 litros de águas residuais.
“Reconhecemos que o setor lácteo era uma das maiores fontes de resíduos orgânicos”, disse o Dr. JJ Leahy, químico da Universidade de Limerick, na Irlanda. Leahy lidera um projeto chamado Reflow, que tem por objetivo recuperar o fósforo das águas residuais do processamento dos lácteos.
Se não tratado adequadamente, o rico fósforo pode causar problemas ao longo de fluxos de água. Os problemas incluem a eutrofização, excesso de nutrientes que faz algas e plantas prosperarem além do normal, não deixando passar a luz e o oxigênio na água para outras espécies animais.
“Queremos produzir uma gama de fertilizantes ricos em fósforo e compará-los com os fertilizantes convencionais de minerais de fósforo”, disse Leahy. Os fertilizantes comerciais tendem a obter fósforo (vital para o crescimento e a saúde das plantas) de rocha fosfórica extraída em minas, um recurso não renovável.
Águas residuais
O Reflow, que começou em 2019, desenvolve técnicas para eliminar o fósforo em diferentes etapas do processo de manejo das águas residuais. O projeto pan-europeu tem sua sede na Irlanda, que possui uma grande indústria de laticínios.
Atualmente, as águas residuais são tratadas em uma planta de tratamento, onde são convertidos em lodo mais denso através de processos químicos para reduzir o volume a ser eliminado. O Reflow quer aproveitar as técnicas biológicas para converter as águas residuais em lodo, com o menor uso de produtos químicos. “O seguinte passo seria queimar, e produzir cinza”, disse Leahy. A cinza pode ser utilizada como fonte de fosfato de cálcio, como fertilizante e até como suplementos médicos.
Converter o lodo original em fosfato de cálcio aumenta os custos, diz Leahy, por isso procuram produtos que sejam mais adequados para cada país. Por exemplo, na Holanda, onde o fosfato das propriedades leiteiras é retirado através do esterco, a cinza de águas residuais poderia ser mais viável economicamente já que seria mais rápida e fácil de transportar. Na Irlanda, o lodo, provado pelas suas propriedades e eficácia no cultivo de plantas, poderia simplesmente ser espalhado na terra, substituindo produtos comerciais.
Encontrar usos sustentáveis para os resíduos lácteos é cada vez mais importante, à medida que cresce a demanda de leite. Na Irlanda, somente no último ano, a demanda de leite aumentou 50% disse Dr. Bill Morrissey, diretor do projeto AgriChemWhey, que desenvolve a conversão de resíduos lácteos em novos produtos. Faz seis anos que Morrissey e seus colegas da Glanbia, a maior indústria de laticínios da Irlanda, perceberam que com o aumento da demanda por lácteos, era necessária uma nova forma de gestão para tornar esse crescimento sustentável e que um dos principais obstáculos eram os resíduos lácteos.
O Permeado de Soro
O soro de leite resultante da fabricação de queijo forma agora a coluna vertebral da seção de nutrição desportiva da Glanbia. As proteínas do soro pré-digeridas, são facilmente absorvidas e promovem o crescimento muscular, algo muito demandado por atletas. Uma vez extraída a proteína do soro e os sólidos dos resíduos lácteos, o permeado de soro fica para trás. A Glanbia trabalhou com vários sócios na pesquisa para desenvolver um processo biotecnológico que transforma esse permeado de soro em ácido poliláctico, um plástico de base biológica, que pode ser utilizado em embalagens e em tecidos.
A instalação piloto pode manejar 10.000 litros de permeado de soro de leite, mas com uma nova instalação industrial o projeto tem como objetivo processar 25.000 toneladas.
“O ácido poliláctico produzido da matéria prima que utilizamos é mais sustentável que os métodos atuais”, disse Morrissey. “É matéria prima de segunda geração, um subproduto do subproduto”. Do ponto de vista da sustentabilidade, disse que cumpre muitos quesitos. “Isso é muito importante em termos de mudanças climáticas”.
A Sociedade Cooperativa Glanbia, que é formada por cooperativa agrícolas e agricultores, é sócia da empresa que desenvolve o projeto de reciclagem sustentável do permeado de soro, e proporciona contribuindo com uma renda adicional para seus associados.
“Conseguimos eliminar os resíduos de forma sustentável, mas também agregamos valor ao leite de nossos agricultores e apoiamos as propriedades familiares”, disse Morrissey. A agricultura irlandesa compreende numerosas granjas relativamente pequenas (100 vacas por produtor), muitas das quais são de propriedade familiar e transmitidas de geração a geração. Segundo o departamento de estatísticas da Irlanda, das 137.500 fazendas leiteiras da Irlanda, 137.100 são de produtores familiares. Em sua opinião, os projetos destas fazendas salvaguardam o modo de vida rural à medida que o espaço agrícola mundial se torna cada vez mais limitado.
Segundo Morrissey, isto oferece um incentivo para que possamos ficar nas zonas rurais, em vez de irmos para as cidades em busca de oportunidades, algo que não é exclusivo da Irlanda. “Esse é o grande mérito desse projeto e que pode ser replicado em todo o mundo”.
















