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Economia Selectus nº 5973

O desempenho da economia brasileira no 2º trimestre de 2020

Desempenho da economia - A pandemia de Covid-19 alterou rapidamente o cenário das economias ao redor do mundo. Diversos países entraram em crise quase instantaneamente, o que resultou em uma grave recessão econômica mundial de caráter inédito de acordo com o FMI.

Fonte: FGV/IBRE
O desempenho da economia brasileira no 2º trimestre de 2020

A expectativa de crescimento da economia brasileira que era, no início do ano, em torno de 2,3%, segundo a mediana do Boletim Focus do Banco Central, tornou-se negativa ao final de março e atualmente está em -5,3%. Caso esse último cenário de retração se confirme, 2020 será o ano com o maior tombo da economia brasileira em mais de 120 anos.[1]

Embora a pandemia tenha impactado diretamente a economia brasileira a partir de meados março, ou seja, nos últimos quinze dias do 1º trimestre, os primeiros efeitos negativos na economia já foram sentidos naquele período. O IBGE divulgou retração de 2,5% do PIB já no 1º trimestre com recuos sentidos em componentes de grande importância como as atividades industriais, de serviços e o consumo das famílias. Diversos setores foram fortemente impactados devido à necessidade de adoção de medidas de isolamento social para diminuir o ritmo de contágio da Covid-19.

Com o avanço da pandemia pelo país, a retração do PIB no 2º trimestre foi ainda maior, alcançando o resultado de -9,7%. Essa é a maior queda trimestral do PIB brasileiro desde o início da série histórica, em 1980.[2] Este resultado é consequência de retrações observadas em diversos componentes do PIB, mostrando uma deterioração da atividade econômica como nunca antes havia sido observada no país.

O desempenho da economia brasileira no 2º trimestre de 2020

Na composição do PIB em doze atividades econômicas, quatro apresentaram o pior resultado trimestral desde 1980 no 2º trimestre deste ano, sendo todos do setor de serviços: comércio; transporte; outros serviços e administração pública.

De acordo com as Contas Nacionais, o setor de serviços representa aproximadamente 63% do PIB e 68% das ocupações do país. Em conjunto, as quatro atividades do setor que apresentaram o pior resultado no 2º trimestre deste ano, representam 46% do PIB do país e 65% do total de ocupações, ou seja, mais da metade dos empregos do país estão concentrados nestas atividades.

A atividade de Outros Serviços, além de ser a que mais emprega, também foi a que apresentou a maior retração no 2º trimestre no setor de serviços, com queda de 19,8%. Esta atividade é composta pelos segmentos de alojamento e alimentação; serviços prestados às famílias; serviços prestados às empresas; serviços domésticos; educação privada e saúde privada. Como os segmentos que compõem a atividade têm como característica serem diretamente relacionados ao atendimento de pessoas sendo, portanto, de grande importância a interação entre grandes contingentes populacionais para o seu funcionamento, foi muito impactado pela pandemia, e a necessidade de implementação de medidas de isolamento social.

Além dessa atividade, as retrações recordes no setor de serviços no 2º trimestre foram verificadas no comércio (-13,0%), transporte (-19,3%) e administração pública (-7,6%). No comércio diversos segmentos foram muito afetados, porém os segmentos de veículos, partes e peças e de vestuários, acessórios, tecidos e calçados destacam-se com as maiores quedas. De modo semelhante o transporte também foi atingido de forma disseminada, mas o modal aéreo destaca-se com retração em torno de 70% no 2º trimestre de 2020. Já a atividade de administração pública foi bastante impactada, principalmente, pela forte queda da saúde pública.

Pela ótica da demanda, o resultado do 2º trimestre também mostra retração recorde no consumo das famílias com queda de 12,5%. O aumento da incerteza em conjunto com as medidas de isolamento e o temor do contágio colaboraram para a retração desse componente com o consumo das famílias de bens duráveis e de serviços sendo bastante impactados.

Além da enorme perda social, não há dúvidas que o impacto da pandemia na economia não tem precedentes. A retração de 9,7% no 2º trimestre supera as perdas acumuladas em todas as recessões econômicas já vivenciadas no país. A última recessão brasileira, que durou do 2º trimestre de 2014 ao 4º trimestre de 2016, apresentou perda acumulada de 8,1% do PIB ao longo de onze trimestres, enquanto apenas no 2º trimestre deste ano o PIB recuou 9,7%.

Contabilizando a perda acumulada do 1º e do 2º trimestre deste ano a retração do PIB chegou a -11,9%. Esse resultado preocupa não apenas pela magnitude, mas também pelo ritmo de crescimento econômico que o Brasil apresentou nos últimos anos. De 2017 a 2019 o Brasil cresceu a uma média de 1,3%, o que é muito pouco para uma economia que havia saído de uma severa recessão encerrada em 2016. O crescimento dos últimos três anos foi tão lento que não foi suficiente para que o país retornasse ao nível de atividade que detinha no início de 2014. Com a chegada da pandemia de Covid-19 no início deste ano a situação ficou ainda mais desafiadora para a economia brasileira pois pela primeira vez entramos em um período recessivo sem termos recuperado o nível de atividade da recessão anterior. No Gráfico 2 é apresentada a evolução do PIB de 2014 até o momento atual. É possível notar que mesmo antes da pandemia chegar ao Brasil tínhamos problemas para retornar ao patamar de atividade do 1º trimestre de 2014.

O desempenho da economia brasileira no 2º trimestre de 2020

Embora o resultado do 2º trimestre tenha sido o pior desempenho da economia em toda a série histórica, os resultados mensais apresentados no Monitor do PIB-FGV atualizados com as informações das Contas Nacionais Trimestrais mostram que o pior momento da atividade econômica brasileira ocorreu em abril. Os resultados de maio e de junho apresentaram crescimento, apesar de não terem sido suficientes para evitar o tombo da atividade no 2º trimestre.

O desempenho da economia brasileira no 2º trimestre de 2020

O Gráfico 3 apresenta a evolução do nível da atividade econômica nos primeiros seis meses do ano. A partir de março, nota-se uma expressiva retração da atividade econômica, com recuo de 4,9% em comparação a fevereiro. Em abril esta queda se intensifica alcançado -9,6%, na comparação com março; a menor taxa de variação mensal do PIB. A partir de maio o PIB iniciou processo de retomada (0,9%), que se intensificou em junho, quando a atividade econômica cresceu 4,2%. Os resultados sugerem que o pior momento da atividade econômica ficou para trás e que a retomada deve continuar nos próximos meses.

A incerteza é maior com relação ao ritmo da retomada. A magnitude das perdas econômicas é grande e a pandemia ainda não terminou. Enquanto a pandemia não estiver controlada, será difícil vislumbrar melhora robusta da economia a ponto de recuperar as enormes perdas recordes do atual período recessivo. No entanto, mesmo antes da chegada da pandemia ao país a economia já tinha problemas econômicos que de certa forma travavam o crescimento econômico. O surgimento da vacina, portanto, não será condição suficiente para que a economia retorne ao seu maior nível de atividade, alcançado a seis anos atrás, uma vez que mesmo antes da pandemia não conseguimos retornar aquele patamar.

Isto mostra que mesmo antes da pandemia o Brasil já enfrentava desafios com condições físicas desfavoráveis e elevado nível de incerteza que impediram uma retomada mais robusta através do aumento dos investimentos. Atualmente esses indicadores pioraram com a pandemia agravando a situação econômica do país. O fechamento de diversas empresas e o aumento do contingente de vulneráveis só ampliou nossos desafios que já são de longa data. Tal cenário indica que a recuperação da atual crise pode ser ainda mais lenta e gradual do que foi a anterior.

[1] A maior queda já registrada no PIB brasileiro foi de -4,3% nos anos de 1981 e 1990, de acordo com o IBGE.

[2] A maior queda da economia até então havia sido de -4,7%, no 4º trimestre de 1990, na comparação contra o trimestre imediatamente anterior. Naquela época a economia brasileira vivenciava forte instabilidade com a implementação de sucessivos planos de estabilização com objetivo de controlar a hiperinflação.

 Por Juliana Trece, Claudio Considera, Elisa Andrade

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